O Gigante sem amigos

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Algumas nações levam consigo a crença na predestinação. Povos que teriam qualidades capazes de dominar o destino, caminhando eternamente em uma imutável estrada rumo ao sucesso. Os EUA e sua igualdade que o levaria a se tornar a hegemonia mundial, a terra das oportunidades. A possibilidade do “sonho americano”. O Brasil e sua fama de “o país do futuro”, slogan desgastado do ufanismo brasileiro, são alguns dos exemplos. 

Outros países também compartilham desse sonho. A Rússia, cujo símbolo de predestinação, ou de maior força perante as outras nações é um urso mal encarado, está nesse grupo de fieis da superioridade. E de certo ponto de vista, o destino parece ter contribuído para que essa ideia permanecesse durante séculos.

Fazendo um exercício de volta ao passado, poderíamos nos lembrar qual é o primeiro momento em que ouvimos falar do país, ainda na escola? Certamente leitores com melhor memória se lembrarão do fracassado ataque de Napoleão, vencido pelos russos e pelo seu inverno. De certa forma, a Rússia naquele momento ainda era um país agrário e atrasado. Insignificante, mas com certa sorte em surgir do nada como central no que vinha ocorrendo na Europa.

E assim seguiu a Rússia, sem grande destaque, até a Revolução de 1917. Com ela veio o socialismo e o país se transformou em portador máximo do “espectro que rondava o mundo”. Foi exatamente esse espectro que chamou a atenção e brotou o ódio da Alemanha na Segunda Guerra Mundial contra o país. Após sofrer diversos massacres e contando novamente com o inverno, a Rússia seguia sua predestinação de ter papel central.

Mas foi na Guerra Fria no pós-guerra que pudemos notar uma certa predestinação da Rússia, além do papel central nas decisões do mundo, já estabelecido. Era o isolamento político. O país parecia fadado à ele. Após o fim do muro que separava os dois pólos, percebia-se que a imagem do país sofria danos até diante de seus parceiros soviéticos, sendo ela acusada de forte exploração e imperialismo, e já no fim do regime comunista, de uma forte necessidade de manter o território pela custasse o que custar. E normalmente o custo era alto.

O fim da Guerra Fria não apagou as mágoas de seus vizinhos, muitos deles flagelados pelo decadente sistema socialista e o abuso do poder central russo, em manter por tempo mais do que necessário, a dominação de um sistema caindo aos pedaços. A Rússia havia aprendido a se tornar imperialista de forma dura, aumentando sua influência de forma pouco inteligente comparada ao sorriso amigo dos EUA, sua potência antagonista.

E assim chegamos aos dias de hoje, em que o país sofre com sua falta de competência em construir pontes. O fim da União Soviética não finalizou o medo de dispersão dos diversos territórios do Império. Há pelo menos 37 áreas de instabilidade dentro do país. Conflitos internos que por vezes assumem tons dramáticos, com ataques terroristas de grupos separatistas seguidas de respostas polêmicas do governo central. 

A indisposição interna dos rebeldes chegou à capital, com polêmicas ações do governo como a lei anti-lobby gay do governo. Decisões que, além de comprometer a popularidade do governo com parte da população, afastam o país de alguns setores sociais do ocidente. Mais do que isso, criam o que cientistas políticos gostam de chamar de “agenda negativa” sobre um governo. Até mesmo o beijo entre competidoras no pódio acirrou os ânimos dos críticos. A quem se dispõe a compreender a sociedade do espetáculo, conhece como esses tipos de acontecimentos são determinantes atualmente. 

Problemas que levam a  próxima sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas à total contestação. A forte oposição da população ao governo e à recorrentes críticas internacionais. A corrupção durante a época socialista e ascensão de diversos bilionários, ligados à mafia e herdeiros de gigantes estatais, colocam em dúvida até mesmo a existência de algum resquício de democracia no país.

Nos BRICS, a Rússia também não é capaz de selar nenhum acordo de cooperação ou que transforme essa sigla em de fato um bloco útil. Inclusive, é um dos pilares da falta de possibilidades de uma ação conjunta entre países de tão diversa cultura e aparentemente tão inaptos em traçar relações que não sejam unilaterais. 

Agora eis que a Russia se coloca como ator principal na crise formada pela guerra civil da Síria. Como um dos principais parceiros do país, tenta de todas as formas deslegitimar o possível ataque americano ao país, com constantes falas na mídia e na ONU. Enquanto a situação segue para o iminente ataque, o país tenta barganhar mais poder decisório deslocando tropas no mediterrâneo. Tudo para proteger seus interesses e de um dos seus parceiros. Mas como sempre, o país demonstra seu destino de caminhar sozinho, enquanto mostra claramente a sua distância, em todos os aspectos, com o país árabe e seu isolamento total no Conselho de Segurança. O poder de veto se tornou com o tempo voto vencido com a falta de apoio que o país carrega na organização.

E muitos poderão perguntar: e o apoio da China, constante, no Conselho de Segurança da ONU? Não seria um forte parceiro? Sabemos que a China só defende interesses que sejam bem claramente seus. No mais, é outro lobo solitário no cenário internacional, que tem parceiros mais pela necessidade do que pela afinidade. Com a Rússia seria o mesmo.

O Gigante parece mesmo fadado a uma cíclica posição de destaque, para o bem e para o mal. Só mais forte do que a predestinação à ocupar um papel central no mundo, parece sua capacidade de se colocar como antagonista de outras potências e isolada politicamente. Se fosse uma pessoa, seria acusada de anti-social. E o destino prega peças engraçadas para confirmar sua dificuldade. Basta relembrar a ironia da Segunda Guerra Mundial, em que a Rússia se uniu ao “time dos Aliados”, mesmo sem nada em comum além da ameaça de Hitler. Depois disso, tais aliados sempre se transformaram em inimigos. Ironias até na nomenclatura de alianças de guerra, traçadas pelo destino de um país sem amigos.


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