O futuro da estabilidade

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Nas últimas semanas, temos acompanhado a história sendo feita no Egito. Assim como na Tunísia, um “ditador” foi devidamente defenestrado e o mundo aplaude o espírito democrático e a força de vontade do povo egípcio, representado pelos milhares que acamparam na praça Tahrir. Agora, restam algumas incertezas. Internamente, Mubarak delegou o poder a uma junta militar, a qual dissolveu o congresso (corrupto), suspendeu a Constituição e governará o país enquanto não saírem os resultados das eleições daqui a seis meses, além de remover o estado de exceção quando as coisas se normalizarem na capital. Enredo parecido, mas de final provavelmente diferente das costumeiras ditaduras latino-americanas. No Egito o exército parece gozar de alguma aprovação popular (dada sua recusa em enfrentar os manifestantes e o apoio dado durante o sumiço da polícia), e os generais não parecem inclinados à ingrata tarefa de governar um Estado-abacaxi, além da pressão dos EUA.

Isso nos leva ao segundo plano de incertezas. Os acontecimentos no Egito influem de modo importantíssimo nas relações de estabilidade e segurança regionais, e por isso merece especial atenção dos EUA, Israel e União Europeia. O Tio Sam já abriu o olho e busca coordenar na medida do possível sua imagem de aliado e consecução de um governo democrático na esteira dos militares – mais importante que a manutenção da histórica aliança com Cairo, é manter afastado o partido radical islâmico mais antigo do mundo. Em troca da manutenção de polpuda ajuda militar, certamente o próximo governo não deixará de atender a algumas sugestões dos EUA. Ainda assim, pesa a contradição em suas políticas, visto que persiste o apoio velado a regimes nada democráticos (como Arábia Saudita) e até mesmo contestados (como o Iêmen).

Quanto a Israel, o país está praticamente isolado: seus aliados islâmicos aos poucos se foram, estando a Jordânia imersa em problemas, a Turquia ainda desgostosa com a crise do ataque ao navio de ajuda humanitária em Gaza, e o Egito agora uma incógnita. Dependem do próximo governo egípcio a continuidade de acordos de paz com Israel, e talvez não seja exagero dizer, a própria paz no Oriente Médio – com as negociações com os palestinos paralisadas e a constante sombra do programa nuclear iraniano, um hipotético isolamento total de Israel pode ter conseqüências das mais tenebrosas.

Já a União Europeia enfrentaria problemas de natureza um pouco diferente, mas ligados ainda assim aos fatos recentes: os ventos da democracia, inspirados por tunisianos e egípcios e que se espalham pelo Oriente Médio e norte da África, podem sim ter suas conseqüências no sul da Europa. No aspecto da segurança, se as revoltas gerarem conflitos ou falharem na implementação de reformas sociais, podem gerar refugiados que atravessam o Mediterrâneo para desembocar em praias italianas ou francesas (como já está acontecendo com tunisianos). Por outro lado, há um problema político com a conivência de alguns países com certos regimes (notavelmente o francês, que mantém boas relações com ditadores do norte da África), que escandaliza a opinião pública europeia e tem seus reflexos em eleições vindouras.

Felizmente, a situação parece encaminhada para uma transição pacífica e democrática. Resta-nos aguardar (e torcer) para que esse belo desenvolvimento político se reflita em maior estabilidade na região.


Categorias: África, Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


2 comments
Duque de Bragança
Duque de Bragança

A "revolução" da Praça Tahrir, como querem os egípcios, me lembrou a revolução de 23 de julho de 1952. Naquela época, os egípcios protestavam contra a ditadura do Rei Faruk e a ingerência da Inglaterra. Alguns aspectos são semelhantes. No entanto, grosso modo e até onde temos informação, Mubarak renunciou pela pressão popular e Faruk foi deposto por um coup do exército - particularmente, creio que aí resida a diferença. Ainda não surgiu nenhum Naguib ou Nasser para encimar-se sobre a sedição (apesar da saliência política de Mohamed Tantawi), mas, a tomada de poder pelos militares não é bom sinal. Pode-se operar uma mudança no centro de gravidade da revolta, isto é, da demanda civil para o descontentamento castrense. Devemos lembrar que o grande sucesso desta "revolução" só foi possível a partir do dia em que o governo Mubarak perdeu o monopólio legítimo da força e, assim, o poder coercitivo que sustentava sua política. Nesse particular, nota-se que a pressão popular contribuiu menos para a mudança de posição dos militares que um descontentamento destes com seu presidente. As Forças Armadas são uma instituição forte no Egito, sobretudo desde 1952. Um importante ator político, não-neutro e com interesses próprios.Vejamos como as coisas se acomodarão, esperaremos, pois como disse o "rais" Nasser, "para aquele que espera, o amanhã está próximo." (p.29. Biografia de Nasser por John DeChancie, Nova Cultural, 1988 - interessante leitura)

Raphael Lima
Raphael Lima

Excelente analise, Álvaro! Muito bem colocadas as possíveis implicações geopoliticas à região e a atores importantes extrarregionais, como os EUA. O momento é de incertezas, essas que poderão alterar o que entendemos por balança de poder na região, ou simplesmente haver o fortalecimento de relações antigas, com novas feições. Resta esperar!Mais uma vez, parabéns pelo texto.Um abraço,