O fim do mundo

Por

Poucos acontecimentos chamaram tanto a atenção da mídia e do público globais quanto à sucessão papal. Para a surpresa de muitos, e após um rápido conclave, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o novo Sumo Pontífice. Logo em seu primeiro pronunciamento, o papa Francisco (nome adotado) disse, em tom de brincadeira, que seus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao “fim do mundo”. Por fim do mundo, leia-se qualquer domínio fora da Europa. Esse é o ineditismo mais marcante: o término de 1.300 anos de exclusividade do papado europeu. 

Por trás dos holofotes da escolha histórica do novo papa, está em curso um processo de reordenamento global. As ditas grandes potências carregam o ônus da construção da ordem internacional posterior à 2ª Guerra Mundial, cada vez mais desgastada, e as ditas potências emergentes, àquelas do “fim do mundo”, procuram aumentar sua influência nas principais decisões globais, contestando a velha – e, ao mesmo tempo, atual – ordem ainda vigente. 

Será que o “início do mundo”, ao qual se acrescentaria o Estados Unidos, ditarão os princípios, valores, normas, práticas e costumes que orientarão e regularão as relações internacionais no século XXI? Que papel exerce e exercerá o “fim do mundo”, particularmente os países emergentes, na política mundial? Barão do Rio Branco sentenciou que o século XX seria o século dos Estados Unidos. Dito e feito. Muitos analistas, hoje, afirmam que o século XXI pertencerá à China. Mas não será exclusivo do gigante asiático. É provável que haja uma maior distribuição de poder entre os países, porém, ainda assimétrica, variando de acordo com suas dimensões: militar, econômico, cultural, etc. Essa multipolaridade deve ser mais competitiva, uma vez que potências tradicionais e novas travarão disputas, em princípio verbais, pela redefinição da ordem internacional vigente. O ponto de partida parece ser a reforma das instituições multilaterais, notadamente a ONU, o FMI e o Banco Mundial. 

O mundo atravessa uma grave crise, mais do que financeira, de governança. Faltam lideranças e soluções mundiais representativas e equilibradas. Não é por acaso que figuras como Chávez, Ahmadinejad e King Jong-un se projetam. Assim como não é por acaso que a democracia e o estado de bem-estar social europeus são colocados em xeque. Exemplo mais recente é a Itália. Quando o uso da força aparece como solução viável, falta o controle sobre seu emprego e seus resultados, como se observou na Líbia. Além de todos os problemas já debatidos, um dos fatores que explica o baixo crescimento do comércio mundial, em 2011, conforme relatório da OMC, foi a intervenção nesse país, que provocou a diminuição da oferta de petróleo e a consequente elevação do preço do barril. 

E os países emergentes? Para não se limitar a revistas ou noticiários, destaca-se que o último relatório de desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recentemente publicado, é intitulado “A ascensão do Sul: o progresso humano em um mundo diverso”. Outra publicação da PwC Economics, muito interessante, fez projeções sobre o mundo em 2050. A estimativa é que, entre 2011 e a metade deste século, as economias emergentes cresçam 4% ou mais por ano, enquanto as economias avançadas cresçam 2% ou menos por ano. A tendência é que Nigéria, Vietnã, Índia e Indonésia estejam na dianteira desse processo. 

É claro que a pujança econômica não é um indicativo absoluto de poder. Ela é apenas um exemplo de que o predomínio euro-americano nas relações internacionais é coisa do passado. Em mundo mais multipolar e assimétrico, os países emergentes, ainda que não adentrem – por repulsão ou opção – ao seleto grupo das grandes potências mundiais, serão indispensáveis à redefinição da ordem internacional. À semelhança da frase da presidente Dilma sobre o combate a miséria, pode-se dizer que “o fim mundo é apenas o começo”. E abrir aquele sorriso acolhedor e esperançoso de Jorge Mario Bergoglio, porque ainda não se sabe o que representa esse começo…

[Post elaborado pelo colaborador Giovanni Okado] 


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


0 comments