O fim da linha

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Hoje, com o lançamento do ônibus espacial Atlantis, termina oficialmente a corrida espacial da Guerra Fria. Isso por que esse é o último vôo planejado do programa espacial do shuttle norte-americano. Iniciado no fim da década de 70, teve seu concorrente russo, o pouco famoso Buran (o único modelo feito mal saiu do papel no meio da crise soviética dos anos 80, fez dois vôos por controle remoto e foi destruído num incêndio dentro de um galpão há alguns anos), seu vôo inaugural com o Columbia em 1981, e depois de 30 anos, uma carreira de grande sucesso (e algumas tragédias), finalmente se encerra o ciclo dessa cria da Guerra Fria.

A ideia era boa: um veículo retornável, que dispensava o uso dos foguetes mastodônticos usados até então e que servia para levar grandes cargas úteis à orbita terrestre, auxiliando no projeto da estação espacial dos EUA, o Skylab. Na época em que os ânimos da Guerra Fria estavam esquentando novamente com Reagan e cia., cortar gastos e manter o desenvolvimento tecnológico de ponta eram metas a ser cumpridas. E o projeto do ônibus espacial durou por conta de sua versatilidade (no que pesem os desastres do Challenger e do Columbia): com o fim da Guerra Fria, caiu como uma luva para operar junto da estação espacial russa Mir, e depois com a Estação Espacial internacional, ISS.

Mas o fato é que o projeto era antigo e tinha seus problemas. A tecnologia avançou e o custo de operação e manutenção dos shuttles ficou proibitivo. Esse é o principal motivo para o encerramento do programa: em época de crise, os primeiros departamentos do governo a terem a torneira fechada são os de menor interesse em curto prazo, como o programa espacial. A decisão do encerramento já havia sido tomada no governo Bush, e vai deixar cerca de 27 mil desempregados. Os bons e velhos módulos russos Soyuz (que como quase tudo que há de tecnologia na Rússia é do tempo da URSS e vão voar até que estejam caindo em pedaços) vão dar conta do recado de levar as tralhas e pessoal para a ISS, enquanto o governo dos EUA se preocupa apenas com o lançamento rotineiro de satélites e sondas, e deixa as missões tripuladas em metas em longo prazo e mais distantes, como levar o homem a Marte. Vôos orbitais tripulados agora são ficam por conta e risco da iniciativa privada, e não vai demorar muito até que isso aconteça.

Em novembro havia comentado sobre o programa da ISS. O encerramento do programa do ônibus espacial entra para a história ao deixar uma reflexão parecida: a era da exploração espacial guiada pelo Estado acabou. Chega ao fim a etapa de desenvolvimento da navegação espacial que era regida por interesse político, mas ainda “romântica”, apresentando um quê de aventura, desbravar limites e bater recordes. Hoje, com o problema dos custos, a crise econômica mundial, as incertezas e a contestação quanto à utilidade desse tipo de projeto, resta aos governos trabalhar em conjunto (como na ISS) ou deixar na mão de empresários extravagantes essa tarefa. Foi bom enquanto durou.


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