O fausto e o fardo norte-americanos

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Novas e antigas preocupações recaem sobre os Estados Unidos da América, descortinando as janelas do futuro caminho que o gigante há de trilhar no mundo. Entre o dever histórico (e retórico) de bastiões da liberdade, democracia e direitos humanos e o possível devir do desbaste da hegemonia e influência globais. De seu grandíloquo fausto para com a humanidade ao fardo que toda essa pompa reveste, os norte-americanos procuram manter o seu lugar ao sol – no plano das idéias – e a sua preponderância na Terra – no plano material. Até quando?

A diplomacia norte-americana tem falhado na contenção de crises pelas quais a comunidade internacional tem passado. A questão nuclear iraniana, deveras problemática e alvo de intensas controvérsias, permanece irresoluta. O Irã, para além de surtos paranóicos de acusar os Estados Unidos pelos atentados à mesquita de Zahidan, também faz ponderações razoáveis, como também acusar os Estados Unidos de traírem o Brasil e a Turquia. Para Ahmadinejad, a arrogância norte-americana seria um indicativo do insucesso de uma saída negociada. Assertiva, por certo, não de todo errada, visto que aquilo que denigre o Irã é o mesmo que fortalece Israel: há uma semana e meia, o governo norte-americano firmou um acordo nuclear com o governo israelense, uma informação confidencial que vazou para a imprensa. Os princípios válidos para o Irã, não valem para Israel!

Como se não bastasse os desvios diplomáticos, a iconoclastia contemporânea tem derrubado a obra de arte do serviço de inteligência norte-americano. De acordo com uma investigação do Washington Post (aqui), os Estados Unidos estão diante da disseminação da inteligência por outros canais, deixando de ser um atributo exclusivo do Estado e tornando a nação mais vulnerável. De território inviolável e seguro para iminente terreno de operações terrorista: o medo se apodera da mentalidade da sociedade norte-americana.

Para piorar ainda mais, a popularidade de Obama decresce. Menos da metade da população norte-americana aprova a gestão do atual presidente. A ilusão do sucesso se converteu na maldição do progresso. Saúde, segurança interna, economia e política externa, os quatro se vão, assim como se iam Roma, Grécia, Cristandade e Europa, para Fernando Pessoa. Grandes desafios internos hão de influenciar os rumos dos Estados Unidos no cenário internacional e resta saber como o gigante se comportará diante de sua grandeza.

Historicamente, a todas as grandes potências competiu um papel fundamental na condução da ordem mundial. Não é diferente com os Estados Unidos. Já há evidências – inclusive outras além das supramencionadas, como o Afeganistão, Paquistão, Iraque, etc. – do desgaste de sua posição, mas a sua preponderância é indiscutível. Há lacunas entre o fausto e o fardo norte-americanos, entre o imaginário e a realidade, passíveis de investigação e sobre as quais os dirigentes do país deveriam repousar. É um momento crucial para escrutinizar os Estados Unidos e inquirir se eles estarão à altura dos desafios vindouros do século XXI.


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