O fado tropical

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Uma belíssima canção de Chico Buarque, da qual este post é homônima, apresenta dois versos magistrais que, em grande medida, ajudam a entender a atual realidade brasileira: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Depois da queda de tantos ministros, tem-se veiculado na mídia e enraizado no senso comum que todos os problemas do Brasil se resumem à corrupção. Em uma análise bastante limitada, a assertiva se confirma, mas, quando se trata de uma análise histórica, desde a formação de nosso país, verifica-se que o mal do Brasil é o fado tropical que corre em seu sangue verde, amarelo, azul e branco.

Em um brilhante artigo ao Correio Brasiliense, Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Vox Populi, lida de maneira muito perspicaz com essa ideia de que a sociedade se acostumou, historicamente, a condensar os problemas brasileiros em torno de um grande mal. Por exemplo, entre os anos 1810 e 1820, a formiga saúva foi a grande vilã do Brasil, e Mario Andrade, ao brincar com a frase de um viajante estrangeiro, ilustrou bem essa situação: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são!”. Aliás, a própria questão sanitária, por um bom tempo, prevaleceu como a mais grave no país, concebendo as doenças como o motivo do atraso brasileiro – isso se consagrou no personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.

De todos os males que já se listaram, o de maior conteúdo explicativo é a herança ibérica, que remonta as Raízes do Brasil, livro de Sergio Buarque de Holanda, historiador e pai do compositor mencionado acima. Fundamentalmente, Sergio Buarque recupera o peso da colonização lusitana para a formação do Brasil. O espírito aventureiro do português contribuiu para ampliar os limites geográficos, bem como alimentou o insaciável desejo de sempre querer mais e a necessidade por resultados imediatos. Acresce-se a isso a transmutação de uma sociedade individualista, rural, patriarcal e personalista para o Brasil, na qual as pessoas tendiam a zelar pelos interesses privados ao invés dos interesses públicos e que a aristocracia, tão bem descrita nos romances machadianos, reinava. A construção de nosso país é indissociável à construção de nossa sociedade e mentalidade, cujas aspirações da grandeza aristocrática sempre estiveram presentes, ainda que sob a orientação de uma ética maquiavélica, em que os fins importam, e não os meios.

É preciso transcender as simplificações fashion que cegam o senso crítico. Notem um ponto curioso levantado por Afonso Romando Sant’anna em artigo publicado na Estado de São Paulo: “o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos”. Um dado ilustrativo é que há 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, enquanto há 109.000 lan-houses. Outro dado, extra-oficial, que poderia ser adicionado é que, atualmente, cerca de dois terços dos Secretários Municipais de Saúde não tem sequer o ensino médio completo. Diante dessa situação, pode-se afirmar que a corrupção não é tudo! Faltam leitura, capacidade e vontade da sociedade para dar respostas à altura dos problemas brasileiros. O povo desconhece seu príncipe, enquanto o príncipe bem sabe como o povo se comporta. O distanciamento acrítico entre governantes e governados possibilita a manutenção dos caprichos dos primeiros sobre os últimos.

O Brasil, com seu fado tropical, está se tornando um imenso Portugal semi-feudal. A corrupção é produto da herança lusitana, que se profilera no tempo e espaço. A tradição personalista e patrimonialista que herdamos dá origem a pequenos nichos de poder. A aristocracia zela por interesses próprios, esquecendo-se dos interesses da nação. O espírito aventureiro, cujo traço marcante é o imediato, sustenta os desejos de ascender aos círculos aristocráticos e, quando os alcança, os recém-chegados incorporam a mesma mentalidade. O povo, por sua vez, permanece sem compreender o que acontece, além de optar por enxergar todos os seus males na corrupção. Ainda que esta acabe, a estrutura que a retro-alimenta não se extinguirá. É preciso pensar o Brasil, e não reproduzir irrefletidamente ideias reificadas!


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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