O Empreendedorismo Social – Parte 3 (Educação)

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Chego, enfim, ao último artigo da série sobre Empreendedorismo Social. As iniciativas sociais obtiveram reconhecimento secundário ante a formalização das estruturas da comunidade internacional. No afã de estabelecer padrões para os relacionamentos inter-estatais, seja sob uma perspectiva realista, idealista ou liberal – para ficar somente nas mais clássicas – o papel do indivíduo passa imperceptível quando não relacionado às high politics. Os estadistas, no sentido maquiavélico ou hobbesiano, receberam as honras por terem garantindo a sobrevivência de seus pares mesmo em tempos de guerra e armas atômicas.

Nada mais justo, não? Afinal, mesmo tomando as concepções dos Direitos Humanos, a vida deve ser o primeiro direito a ser resguardado. O Estado, nessa perspectiva, foi a elemento basal para tal estrutura. Em última instância, a primazia das high politics fez-se necessária para a garantia dos mais elementares direitos do ser humano.

Já tratamos da diminuição da proeminência do Estado, tanto na esfera intra-estatal, quanto na inter-estatal. Neste contexto, mais do que nunca, há espaço para aqueles que possam oferecer soluções para as demandas sociais. Posteriormente, a partir do seu conhecimento prático, o empreendedor social poderá auxiliar a promoção de mudanças estruturais através da via política.

A área de maior potencial de transformação social é, inegavelmente, a educação. Assim como a saúde, prover uma educação de qualidade vai muito além do simples investimento financeiro. É, antes de tudo, uma questão de planejamento, gestão e avaliação. Assim, – freqüentando o campo da suposição – um empreendedor social que proponha uma inovação educacional significativa, que por sua vez altere sensivelmente o padrão educacional em sua nação, pode impactar os rumos de seu país nas próximas subseqüentes. Por que Brasil e Coréia do Sul – que possuíam níveis de desenvolvimento semelhante na década de 1970 – apresentam hoje níveis de desenvolvimento humano tão discrepantes? Gilberto Dupas aponta que o fator educação é elemento central para pensar a questão.

O exemplo que utilizarei para finalizar a série sobre Empreendedorismo Social vem da Índia. Glória de Souza, professora de uma escola em Bombain, enxergava uma forte correlação entre a falta de motivação e o desejo de sair do país com o sistema educacional adotado para os jovens indianos – até então pautado na memorização e repetição. Eventualmente, Glória convenceu os diretores de sua escola a estabelecerem um projeto experimental baseado em novos princípios para a educação de jovens, contextualizando as lições ao ambiente que as cercavam.

Com o apoio da Ashoka, a professora indiana pode dedicar-se exclusivamente a sua idéia, fundando, em 1981, uma organização chamada Parishar Asha, que promovia a educação ambiental. Sua idéia ganhou maior relevância a partir da adoção de seu programa de Educação Ambiental a 1700 escolas em Bombain. Após três anos, cerca de um 1 milhão de estudantes estavam aprendendo com seu método. Menos de 10 anos depois de iniciar seu projeto, o governo indiano incorporou o método de Glória ao currículo-base para a educação no país.

Não sou ingênuo de inferir a prevalência dessa temática ante aos temas correntes das Relações Internacionais. A questão nuclear, o terrorismo, a integração regional, a estrutura política e as mudanças climáticas tomam grande parte da agenda internacional, com motivações justificáveis. O trabalho de base, via iniciativas sociais – principalmente locais – passam despercebidos, mas constituem um alicerce importante, por não depender de esferas políticas para agir. Atingir as discussões políticas tem pouca relevância para os empreendedores sociais, à medida que não são movidos pelo prestígio nem pelo lucro. Os próximos anos devem consubstanciar um contexto que ensejará grandes oportunidades nesse campo de atuação. A valoração deve permanecer por muitas décadas, fica, no entanto, o exemplo e a inspiração de indivíduos com visão para além de seu tempo, no sentido de promover uma mudança, por vezes silenciosa e mesmo imperceptível aos olhos de muitos.


Categorias: Ásia e Oceania


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