O Empreendedorismo Social – Parte 2 (Saúde)

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Em meados da década de 1980, a cada ano morriam cerca de 14 milhões de crianças menores de 5 anos. A maior parte dos óbitos era relacionada a doenças como diarréia; desnutrição; pneumonia; e outras enfermidades que uma simples vacinação poderia evitar maiores complicações. Assim, o quadro mostrava-se reversível através de medidas preventivas relativamente simples e baratas.

Um exemplo disso é o tratamento desenvolvido, na década de 1970, para a diarréia – que provocava 5 milhões de mortes anualmente. Pesquisadores descobriram que uma solução de água, sal e açúcar auxiliava na retenção de fluidos e sais minerais, o que possibilitou a diminuição em mais de 50% das mortes por desidratação decorrentes da diarréia. Não havia a necessidade de grandes infra-estruturas ou equipamentos para evitar milhões de mortes todos os anos. Na verdade, o custo desses kits de hidratação ficava em centavos.

James Grant, norte-americano, assumiu a diretoria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para as crianças) e deu início a uma vigorosa estratégia de combate ao que chamou de “emergência global silenciosa”. Fazia referência justamente aos óbitos de crianças fruto de doenças que poderiam ser facilmente tratadas ou prevenidas. No início foram grandes as resistências dentro da Unicef, à medida que Grant promoveu uma completa mudança no modus operanti da organização, passando do simples apoio a campanhas e projetos para a execução direta de iniciativas. Dessa maneira, eram utilizados o prestígio, o reconhecimento global, a neutralidade política e a influência moral das Nações Unidas (ONU), que acabaram sendo fundamentais para consubstanciar tais iniciativas.

O final de 1982 marcou o início da jornada, com o lançamento da estratégia inicial do planejamento de Grant no comando da Unicef, era a GOFI. Fazia referência a quatro ações: o acompanhamento do crescimento, a reidratação, a amamentação e a imunização. Logo foram acrescentadas mais três ações: a suplementação alimentar, o planejamento familiar e a educação das mulheres. A estratégia de Grant foi severamente criticada, mesmo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que defendia a mudança do quadro mediante a uma reestruturação mais abrangente da assistência médica. O trabalho da Unicef não parou; a situação das crianças dos países em desenvolvimento exigia uma ação imediata. Aos poucos, a organização construiu uma sólida base de apoio, através do incansável trabalho da equipe de Grant, junto a organizações civis; lideranças políticas e religiosas; e empresários. Eventualmente, mesmo a OMS engajou-se nas iniciativas da Unicef.

Os resultados foram surpreendentes, no início da década de 1990, dados apontavam que, por exemplo, a imunização atingia 80% da população dos países em desenvolvimento, antes não alcançava 20%. Outra proposta de Grant foi uma reunião na sede da ONU, em Nova Iorque, com os chefes de Estado para discutir a situação das crianças no mundo – nunca as Nações Unidas haviam proposto um encontro com todas as lideranças mundiais. Nem mesmo os membros da Unicef acreditavam na idéia de Grant. A World Summit for Children (Reunião Mundial para as Crianças – em tradução livre) terminou acontecendo, em 1990, sendo a maior reunião já realizada em âmbito da ONU para se discutir um único assunto, com a presença de 71 chefes de Estado. Desse encontro, surgiu a Convenção dos Direitos da Criança, ratificada por todas as nações presentes, menos Estados Unidos e Sudão.

O exemplo utilizado evidencia dois fatos. O primeiro é o potencial de ação das agências das Nações Unidas – que possuem grande poder de mobilização seja moral, econômico ou político. Em segundo lugar as características que promovem o sucesso de iniciativas sociais: o forte referente ético; a constante disposição a corrigir estratégias para vencer obstáculos; a abertura a mudanças em estruturas previamente empregadas; e a busca pela colaboração – por vezes multidisciplinar. Tantos outros são os exemplos de empreendedores sociais no campo da saúde, mas é inegável o potencial para a mudança advinda da soma de uma vontade e disposição inquebrável (personificada pelo empreendedor social) a uma organização descentralizada de alcance e influência capazes de gerar efetivas alterações junto à comunidade internacional, como no caso tratado.

Fonte: Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas idéias – David Bornstein (Editora Record)


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