O discurso de Dilma na AGNU

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Na última terça-feira, a presidente (ou presidenta) Dilma Rousseff abriu pela segunda vez a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), desta vez em seu 67º número. Desde 1947 há a tradição do Brasil ser o primeiro orador a discursar e assim vem sendo, cabendo ao presidente tal posto. Logo no início de sua fala, Dilma pontuou novamente ser uma voz feminina a abrir a AGNU, fato que evidencia uma busca por igualdade de direitos e oportunidades, bem como a ausência de discriminação e violência na questão de gênero. 

Como de costume, manteve uma postura crítica e severa quanto às políticas monetárias e fiscais ortodoxas realizadas por potências mais desenvolvidas. Em suas palavras, os países emergentes vêm perdendo mercado devido à valorização artificial de suas moedas. No mais, seguiu acobertando a defesa comercial de tais países, a qual não é protecionismo e está regulamentada nas diretrizes da Organização Mundial do Comércio (OMC). No que toca a este tema, finalizou com o que seria a solução para a crise financeira: um maior vínculo entre Estados e organizações internacionais, com destaque para G20, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). 

Também, é claro, não poderia faltar a menção da política interna formulada por seu governo aqui no Brasil. Enalteceu as política sociais inovadoras, o consumo de massa e o combate à pobreza. Reafirmou, com convicção, dizendo: “Meu país tem feito sua parte!”. Posteriormente, passou para a complexidade do Oriente Médio e do Norte da África. Sobre a Síria, em específico, aderiu ao discurso diplomático e de mediação entre ONU e Liga Árabe, repudiando totalmente o conflito armado. Ainda assim, foi contra a onda de preconceito em relação aos islâmicos em países ocidentais. Interessante observar que somente neste momento ela foi aplaudida pelas autoridades presentes. 

Reiterou sua fala de 2011 quanto à urgência de reconhecer o Estado Palestino como membro das Nações Unidas. Sobre esta organização, disse que o impasse do Conselho de Segurança é um dos maiores problemas das relações internacionais contemporâneas, sendo necessária a sua reforma. Novamente, não poderiam ficar de fora os debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, merecendo ênfase em sua fala a presença do multilateralismo na Rio+20. 

Sobre as relações com países vizinhos, salientou a ação do Brasil em fomentar o ambiente democrático, de paz e justiça social na região e na integração sul-americana e caribenha. Justificou a querela com o Paraguai com a seguinte frase: “Integração e Democracia são princípios inseparáveis”. Por fim, mencionou Cuba como exemplo clássico de um país que necessita de apoio e cooperação internacionais. Criticou o embargo econômico e defendeu seu fim. Elogiou as Olímpiadas de Londres e já falou do papel a desempenhar na Copa do Mundo e nas Olímpiadas em território nacional nos próximos anos. Nas últimas expressões, repreendeu a intervenção através do uso da força e ratificou a existência de uma ordem multipolar. 

Como todo discurso dito “diplomático”, ele tem seu caráter normativo e ponderado. Todavia, nos serve para trazer ao debate e resumir uma série de acontecimentos importantes das relações internacionais que ainda não teve um fim em si mesma. Já temos as bases para as cenas de um próximo capítulo, ou melhor, de um próximo discurso.


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