O dilema de Obama

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O Protocolo de Genebra, o primeiro documento que trata do uso de armas químicas, foi acordado há mais de 80 anos. Desde então, o mundo parecia caminhar para uma progressiva eliminação do seu uso. Por outro lado, a Cruz Vermelha, na celebração dos 80 anos do tratado internacional, apontava o aumento do número de agentes potencialmente perigosos e a ampliação dos atores com acesso a esse tipo de recurso como elementos que amplificavam os riscos existentes.   

Entre as lembranças que ajudaram a fortalecer o repúdio a esses armamentos estão: o uso na Guerra do Vietnã pelos Estados Unidos e os ataques de Saddam Hussein aos curdos. Na sequência do Protocolo de Genebra, foi-se além com a celebração de convenções complementares relativas às armas químicas e armas biológicas. Como exemplo do efeito devastador, ainda em 2012 os norte-americanos continuavam esforços de descontaminação no Vietnã, décadas depois dos ataques com um mistura de herbicidas (o agente laranja). 

Pois bem, mas por que estas armas são tão tenebrosas? Nesta semana um professor francês, ex-membro da organização Médicos sem Fronteiras, elucidou a questão. Perguntado sobre a diferença entre armas químicas e convencionais, respondeu que as últimas são empregadas para a conquista de pontos estratégicos e o uso é flagrante, enquanto as primeiras têm como objetivo aterrorizar a população e não se percebe de imediato qual a origem do ataque. Isto talvez valide, por exemplo, relatos que médicos que prestaram socorro aos bairros de Damasco atingidos tenham igualmente sido contaminados, muitos sem saber.  

Com estas imagens em mente, somadas ao cômputo de vítimas do mais recente evento (mais de 1000, segundo John Kerry), Obama medita sobre eventuais caminhos possíveis. A sombra da intervenção sob pretextos falsos no Iraque implicou certa cautela e oposição da população. Daquela vez, havia a “coalition of the willing”, com uma importante participação britânica. Agora, os britânicos estão fora. Hollande, presidente francês, inicialmente falou em punir Assad e já apresenta sinais de arrefecer os ânimos. Sobrou para o Obama, agora sem coalizão internacional, mas com indícios mais sólidos que o pretexto para intervir é válido. 

O Brasil segue com seu posicionamento de que a solução para a questão da Síria deveria surgir de negociações. Causa estranheza para muitos, mas em questão de Direitos Humanos a diplomacia brasileira defende que soluções devem vir do âmbito multilateral. África do Sul também se manifestou contrária a uma ação militar. O Conselho de Segurança da ONU não chega a um acordo, o Irã ameaça retaliar, Israel se prepara para um transbordamento do conflito para suas fronteiras, enquanto a opinião pública norte-americana é contra a punição militar à Síria. Assim, Obama ficou em uma situação desconfortável, afinal deixaram todos os riscos com ele.  

Caso o plano seja levado adiante, mesmo circunscrito à punição pelo uso de armas químicas por Assad e sem tropas americanas no terreno, será que passará sem resposta da Síria? Outra questão, estabelece-se então a linha do tipo de armamento que não se deve utilizar, mas como fica a crise humanitária? O objetivo não parece ser destituir Assad, a comunidade internacional continuará assistindo de longe a continuidade da guerra? Por fim, recuar igualmente seria temerário, especialmente depois de discursos inflamados em defesa de uma eventual resposta pautada em princípios humanitários. Em todos os cenários, o ônus cairá no colo do Obama. Ele traçou a linha vermelha, ele viu a repetição de ataques desafiando o limite que estabelecera e provavelmente atacará sozinho (sem coalizão e sem anuência das Nações Unidas). 

Update: Obama decidiu atacar. Contudo, quer a autorização do Congresso. No final das contas, ele quer dividiro ônus com alguém. Nada mais justo, considerando os exemplos recentes de crises decorrentes de ações internacionais.  


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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