O Consenso Latino-americano

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Ao fazer um sagaz jogo de palavras o chanceler da Venezuela disse que a última Cúpula das Américas representou o momento no qual o Consenso de Washington tornou-se um “Consenso sem Washington” (a expressão foi tão forte que até Fidel foi comentá-la). Essa é uma frase interessante para se pensar. Seria de fato o caso de não termos mais o Tio Sam ditando as regras nas Américas, oposto de como vinha ocorrendo desde o início do século XX? Agora será que teríamos uma nova “doutrina Monroe”, a América sem “os norte-americanos”?

Bom, dizer isso poderia ser muito precipitado. Mas a questão é que os Estados Unidos já não estão mais com a bola toda na região, politicamente falando. O encontro do fim de semana passado foi um exemplo disso. Há 18 anos, na primeira Cúpula das Américas, não se imaginaria os países latino-americanos ditando condições de existência para a reunião, ou ao menos não sendo ouvidos. E assim foi com presidentes reunidos em Cartagena que acabaram sem um documento final e sem consenso.

Deixando de lado algumas peculiaridades do evento – como o bafafá com fotos da Hillary Clinton bebendo cerveja e dançando humba e o escândalo do serviço secreto estadunidense –, puderam-se observar diversas críticas de países representativos como o Brasil e a Colômbia com o endereço certo de Obama. E, dentre elas, a que mais empacou o consenso foi a demanda, de muitos países da região, da participação de Cuba no próximo encontro. E evidentemente que o Tio Sam e o “Maria vai com as outras”, digo, Canadá, tiveram que barrar.

Agora, se os EUA foram capazes de manter seu anacrônico bloqueio a Cuba na Cúpula das Américas, não foi sem riscos. Muitos países da região, dentre eles Brasil e Colômbia, defenderam que caso o regime castrense não seja convidado, não haverá próxima Cúpula das Américas. Se Brasil, Colômbia, Venezuela e mais alguns aliados sul-americanos não participarem, de fato há dificuldade de manutenção das reuniões. Mesmo porque a Cúpula surgiu, em 1994, como uma excelente oportunidade de promoção dos interesses comerciais estadunidenses na região pela ALCA, em um contexto de economias com enfoque neoliberal. Quando a proposta não vingou, esses encontros parecem ter se tornado desfuncionais, principalmente pela existência da OEA. E já fragilizados, bastaria esse pequeno esforço para derrubá-lo.

Mas, por outro lado, ainda é difícil pensar em um “Consenso sem Washington”. Economicamente falando, o Tio Sam representa o maior parceiro comercial da América Latina, e o comércio entre eles tem apenas crescido. Apesar de a China estar emergido como outra possibilidade comercial equiparável, já que assumiu a segunda posição no ano passado (e querem superar os EUA). De um Consenso “de Washington”, podemos estar vivenciando um revigorado “Consenso Latino-americano”. Um momento no qual os EUA ainda são muito importantes política e economicamente, mas que precisam revisar sua estratégia para a região se não quiserem despertar a insatisfação de seus parceiros regionais.

[Clique aqui para um resumo jocoso, porém bem realista, do encontro e aqui para um interessante artigo da The Economist sobre o tema.]


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