O complexo "até quando"

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A pergunta proposta por um artigo recente da The Economist é, no mínimo, instigante. Até quando? Até quando o regime de Bashar Al-Assad ainda vai se arrastar? A resposta é complicada, mesmo porque o cenário tem mudado rapidamente. Basta olharmos para as bombas inesperadas que tem explodido no país na última semana. 

Uma surpreendentemente acertou o alvo no dia 18. A dos opositores com destino certeiro da reunião dos homens de confiança de Assad. Homens importantes, como o ministro da Defesa e o ex-chefe da inteligência militar (cunhado do ditador), morreram, enquanto outros muitos ficaram feridos. E a outra ainda não explodiu, mas ameaçou logo três dias depois da decisão de extensão da missão dos observadores da ONU no país. Foi a declaração bombástica (do que todos já imaginávamos) do governo sírio de reconhecer, pela primeira vez, que possui armas químicas e que não teria medo de usá-las contra os países ocidentais no caso de uma intervenção externa. 

Como era de se esperar, a ofensiva dos opositores não teria como passar em branco. E assim assistimos a uma fulminante escalada da violência nos últimos dias. Assad fechou ainda mais o cerco sobre os rebeldes, ampliando a violência e pressionando a segunda maior cidade da Síria, a potência industrial, Aleppo. A séria disparidade de capacidades entre os opositores (que poderá aumentar com a possibilidade de ataques aéreos) e o governo tornou nosso “até quando” ainda mais difícil de responder.  

Agora, nossa perguntinha esconde uma realidade mais complexa que vai muito além das fronteiras sírias. Por trás da violência no país, temos observado operadores de marionetes confusos, cada qual puxando o seu boneco para um lado e tentando atacar o do outro. Um toma lá dá cá sem tamanho que nos faz repensar nossa questão. Até quando as potências manterão essas posições contraditórias e pétreas com consequências sérias para as populações? Basicamente, de um lado, os Estados Unidos tentam forçar sanções contra o regime sírio e, de outro, a Rússia e China opõem-se. Mas se fosse somente isso, até estaria fácil de resolver. 

A questão é que a novela está longe de acabar esses dois lados parecem dispostos a ir às últimas consequências, trazendo ao público, os novos capítulos. Depois do clímax do veto russo e chinês (para mais no blog clique aqui), foi a vez do Tio Sam reagir cancelando a compra de helicópteros de 545 milhões de dólares da empresa russa Robosoboron Export, alegando que não vão financiar a venda de armas para o governo sírio. Ora, não tardou para a Rússia reagir afirmando que os Estados Unidos têm um olhar de justiça muito seletivo e fazem vistas grossas quando interessa. Quando a Al-Qaeda faz a população de alvo no Iraque são classificados como terroristas. Mas quando o mesmo ocorre na Síria, a pressão é justificada para ampliar a pressão contra Assad no Conselho de Segurança. 

O que assistimos é basicamente a uma divisão do mundo. Uma mini guerra fria de interesses geopolíticos, contradições e dilemas éticos que vai, inevitavelmente, levar a complicações ainda maiores no país caso as potências não deixem alguns de interesses de lado. O problema é que para se chegar a algum consenso parece que alguém tem que ceder, abrir mão de interesses. E isso é algo que, em política internacional, quase nunca se quer.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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