O colapso do império americano?

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Não. Nem tanto. O consenso, sob os mais variados pontos de vista, é que ocorerrá um forte reajuste econômico. É evidente que são muitos os perdedores. Antes, os Estados Unidos pautavam seu crescimento econômico no consumo e importações, ao passo em que China, Japão e Alemanha equibravam-se a partir da poupança e exportações. A crise, cujo estopim completa um ano neste setembro, refreou a demanda norte-americana, diminuiu as exportações em consequência, culminando em uma retração da economia de muitos países.

O retrato é sombrio nos Estados Unidos. Seguidos déficits comerciais, desemprego de 9,4%, guerras inacabadas, dinheiro do contribuinte empregado na salvação de instituições financeiras, enfim. A popularidade de Obama vem despencando, na posse era de 80% e agora já atinge 50%. As comparações que remetiam a Rooselvet e Kennedy – um pela condução de do país do pós 1929 e o segundo por ter representado um fato novo na política americana, agora fazem referência a figuras menos ilustres, como Lyndon Johnson e Jimmy Carter. Até o impossível parece tornar-se plausível novamente, o partido repúblicano retoma parte de sua força.

O governo do 8 ou 80 – sucesso ou fracasso estrondoso, parece mesmo de consubstanciar. Obama terá inúmeros desafios pela frente; difícil prever em que posição se encontrarão republicanos e democratas em 2012, na próxima eleição presidencial. As escolhas serão difíceis, no campo econômico: manter o déficit comercial para continuar a incentivar a economia e vencer de vez a recessão, ou diminuir o ritmo do endividamento e colocar sua plataforma de mudança social em risco frente a uma retomada da economia mais gradual? Vale lembrar ainda que o presidente colocará seu plano de reforma do sistema de saúde americano à prova e carregará também o fardo da guerra no Afeganistão.

Seria o fim do sonho americano? Muito improvável. Em diversos momentos a proeminência norte-americana pareceu ameaçada. Exemplos disso não faltam, como a URSS na década de 1950 no ato do lançamento do Sputnik – na corrida armamentista, e frente ao Japão na década de 1980, no campo da tecnologia empregada para o desenvolvimento econômico. Eventos como este só reforçaram o potencial de recuperação dos Estados Unidos. O mundo depende tanto dos Estados Unidos, quanto o contrário. Veja, para ilustrar o que digo, alguns dados: os norte-americanos são os mais produtores mundiais de carne bovina e milho, e os maiores consumidores mundiais de computadores, petróleo, automóveis, café, entre tantos outros. Só os Estados Unidos, representam 23,5% do PIB global e são responsáveis por 20% da totalidade dos investimentos direto estrangeiro no mundo. Pode-se apontar ainda um último ponto fundamental, o investimento no ensino e na pesquisa, cerca de 2,6% do PIB do país, muito mais elevado do que em outros países desenvolvidos.

É um tentação cravar o fim de uma Era. Mas o sistema internacional é dinâmico flexível ante ajustes econômicos e políticos. Só o tempo dirá se realmente caminhamos para um sistema mais multipolar, onde a figura norte-americana estará ofuscada por novos gigantes. A lógica financeira e moral impregnada pelos Estados Unidos enfrenta uma inegável crise – para qual parece não haver volta, mas são poucos os indícios, ao mesmo tempo, que o seu potencial de revitalização e encontrar um novos caminhos sigam caminho semelhante. A gigante pode ficar, só não fica claro se Obama vai contar com a paciência de seus concidadãos por muito mais tempo.

[Peço desculpas pelos poucos links, mas este post foi inspirado na Revista Exame – Especial Estados Unidos, de 09/09/09. Excelente leitura, por sinal]


Categorias: Economia, Estados Unidos


2 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Reestruturação não só para os EUA. As discussões envolvem todo o sistema internacional. Em realidade, um novo paradigma de desenvolvimento tem que ser encontrado. Os países que mais pesadamente investiram na economia de mercado foram os que mais perderam. Isso pode ser o precedente necessário. Sobre o Obama, de fato, as expectativas depositadas na sua figura foram elevadas. O caminho está aberto, pode nos desapontar ou representar tudo o que dele esperamos. Grande abraço!

Aura Sacra Fames
Aura Sacra Fames

Não acredito que esse seja o colapso do império ianque, mas um reestruturação. Ademais, sempre haverá aquele que terá tendências de hegemonia. Sobre Obama, a mídia criou um super-herói, um salvador da pátria, em torno do paradigma do 1º presidente negro.AbraçoPor uma sociedade melhor!aurasacrafames.blogspot.com