O código do descrédito

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E o Brasil mudou. Com o fim dos governos autoritários no país e o emergir da década de 1990, ventos de mudança sopraram na mente dos brasileiros e na política externa do país. Foram ratificados muitos tratados internacionais pendentes em diversas áreas e foram alteradas as posturas referentes às mudanças do clima.

De país displicente que conduziria a Amazônia à sua própria destruição, a país referência por suas posturas pró-ativas no campo das mudanças climáticas, o Brasil foi construindo uma nova imagem, que perdura até hoje.

Um exemplo disso foram a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (CNUMC), no Rio de Janeiro, em 1992, também conhecido como ECO-92 ou Rio-92, e a Cúpula Mundial pelo Desenvolvimento Sustentável, a Rio+10 (realizada 10 anos depois da Rio-92) que consolidaram a nova visão do país em questões climáticas. Visão essa que perdura até hoje, mas lembrando, foi construída lentamente, arduamente e ainda é um castelo de cartas em nossa história, já que o Brasil apresenta dificuldades em lidar com desmatamentos ilegais em áreas de preservação e é bem dependente de uma agricultura que precisa de constantes ganhos de produtividade e produção.

Nesse sentido, reformular o Código Florestal brasileiro tornando mais fácil a ampliação do desmatamento das áreas de proteção e garantindo mais vias para o drible da legislação (como permitir que o registro de áreas seja feito pelos governos estaduais) é grandemente não recomendado. Isso porque a proposta atual, não só pode, como irá representar uma pedrada na casa de vidro da política externa do Brasil.

Basta pensar que todo o marketing pessoal do ex-presidente Lula pelo biocombustível brasileiro pode ser rapidamente desconstruído se a produção do produto for assimilada à expansão ilegal de canaviais ou a uma produção com severos custos aos ecossistemas brasileiros. O descrédito poderia emergir também quando da realização da próxima conferência de desenvolvimento sustentável, a Rio+20, que terá o Brasil como país sede. Ter um novo código florestal mais permissivo e que abranda as relações do Estado com os desmatadores não seria nada adequado para a visão internacional do país.

Se a política externa é um jogo tão delicado, cada palavra, cada frase e cada ação devem ser pensadas com cuidado. Um Código Florestal que instiga o desmatamento pode vir a representar uma incoerência, um passo mal pensado, que, ao invés de produzir mais comércio internacional de produtos brasileiros, pode acarretar justamente o oposto: descrédito.


Categorias: Polêmica, Política e Política Externa


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