O ciclo sem fim

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Há 70 anos, na França, partia o primeiro trem lotado de judeus rumo ao campo de concentração de Auschwitz. Era um período de guerra, e a Europa olhava aterrorizada para o avanço dos nazistas e da ideologia antissemita. Hoje, mais de 40 anos depois, ainda pode-se ouvir o ranger dos trilhos desse trem, que ainda manifesta suas tenebrosas assombrações materializadas na forma do antissemitismo na França (clique aqui para uma interessante entrevista sobre isso). Na semana passada já comentamos um pouco sobre isso, quando falamos de um atentado, no qual crianças judias foram brutalmente assassinadas no país. 

Mas ainda assim, uma dúvida corta esse agudo som e parece ecoar em um tom grave muito mais intenso. E essa pergunta é a do quanto o antissemitismo também não motiva a tal da “islamofobia”. Ainda mais em um contexto de “guerra ao terror”, em que se mistura também “terrorismo” com “islã”. A história prova que os árabes e os judeus não tiveram uma relação muito amigável. E mesmo, sabendo que essas duas “fobias” são muito ligadas, os líderes franceses não se mostram muito “ligados” nessa situação. Nicolas Sarkozy é um bom exemplo disso. Desde a política que criminaliza o uso da burca (já bem comentada no blog, aqui e aqui), passando pelas críticas à imigração no país em 2011, e desembocando até seus mais recentes atos após os atentados de Toulouse, ele parece disseminar ainda mais intolerância. 

Ontem mesmo, afirmou que proibiria a entrada na França para o de um dos mais polêmicos líderes xiitas da atualidade, Youssef al-Qaradawi. Por mais complicado que as declarações desse líder possam ser, é  um chefe religioso de renome. Há até quem o compare com o papa por opinar tanto em tantos temas diferentes. Al-Qaradawi atualmente reside no Qatar e tem até passaporte diplomático. Mesmo assim, o governo orientou o ministério do Interior a barrar sua entrada no país, considerando-o “persona non grata”. O presidente francês diz que não existe relação entre esse bloqueio e o atentado de Toulouse. Mas só não vê uma relação quem não quer. Ainda mais em um contexto no qual Sarkoky tem tentado ganhar votos radicalizando sobre o polêmico tema da imigração

O ódio contra os judeus é sim um problema muito disseminado mundo a fora, não tem como negar. O ódio contra o islã é outro. Mas, quando o governo cria políticas que intensificam ainda mais o ódio “a uma das partes” ou “em uma das partes”, é como se criasse um ciclo de vingança. A população vai assimilar ainda mais islã com antissemitismo, e, eventualmente, com imigração (apesar de o presidente dizer o contrário). E, assim, estimulam-se ainda mais radicais islâmicos ou quaisquer outros radicalismos. É um ciclo sem fim.


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