O chavismo adoece

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Polêmicas envolvendo Hugo Chávez parecem nunca cessar. De preocupações externas com o autoritarismo, passando pelas tentativas de ressuscitar a figura de Simón Bolívar e suas “missões bolivarianas”, até as opiniões inflamadas contra os “líderes ianques”, o presidente fez sua fama. O chavismo tornou-se na Venezuela uma ideologia de grande empatia para a população de média e baixa renda, capitalizando sua popularidade nessas camadas com seus programas sociais. 

No poder desde 1998, o presidente conseguiu a reeleição em 2006 e agora, novamente, em 2012. Em 10 de janeiro irá tomar posse para um mandato que seguirá até 2019. Mas nem mesmo os líderes mais populares vivem para sempre. E, a nova polêmica de Chávez não vem de suas ações, mas sim com sua saúde. 

Após ter diagnosticado um câncer em junho de 2011 (clique aqui para a cronologia dos fatos), poucas informações sobre o tema corriam por aí, e a imprensa especulava. Questionava se não buscava capital político para eleições, se ia ter capacidade de governar doente, qual era o grau da doença e etc. Depois diversos tratamentos em Cuba, em outubro do mesmo ano, ele se disse curado. Conquistou 54,32% dos votos válidos em disputa com o governador de Miranda e opositor, Henrique Caprilles, no mesmo ano, e tudo parecia caminhar normalmente para ele e seu partido, o PSUV. Até que o final desse mês voltou a piorar e retornou ao país de Raúl Castro para mais um tratamento. 

Agora, quando anunciou que iria novamente para Cuba, a situação pareceu mudar de figura. Diferentemente das demais vezes, anunciou que seu vice-presidente e chanceler, Nicolás Maduro (para mais sobre ele, aqui), assumiria o “alto comando político do país” e fez questão de, uma breve passagem por Caracas, para anunciá-lo publicamente. Ora, por que fazer algo do gênero se não se teme estar incapaz de continuar governando? Essa é a principal indagação da imprensa e da população venezuelana. 

Primeiro porque na Venezuela, mesmo no exterior, o presidente ainda mantém-se com suas obrigações de governo. Segundo que, de acordo com o artigo 233 da constituição de 1999, em caso de incapacidade de governar por motivos de saúde permanentes antes dos quatro primeiros anos de mandato, deverá ser convocada uma nova eleição em até 30 dias (aqui para ler o documento). O que significa que, em caso de deterioração da situação, ou de falecimento, o presidente precisará de um sucessor político credível e aceitado como homem do povo. 

A incerteza parece ser grande, pois tanto Maduro quanto o ministro da Comunicação já anunciaram que a situação é delicada. No site do ministério é possível ver um vídeo com um anúncio de alguns detalhes da situação de saúde de Chávez. Da mesma forma, Maduro também anunciou que o país deveria se preparar para novos “cenários complexos”. 

A maior pergunta que tem emergido na mídia é se o chavismo seria capaz de sobreviver à ausência de Chávez (aqui para artigo da BBC sobre isso). Seria possível tornar Chávez um mártir em benefício do partido ou sua figura centralizadora e personalista dependeria somente de sua imagem? Clovis Rossi tenta esboçar se há esse caminho em dois artigos (aqui e aqui), defendendo que o chavismo como se conhece agora sofrerá o constante risco da fragmentação. Por outro lado, apesar da dividida oposição buscar um caminho de unidade com Caprilles (afinal 44% dos votos contra Chávez não podem ser desprezados), há um risco de esse candidato não obter sua reeleição para o governo de Miranda e demonstrar-se incapaz de unir a oposição. Ou seja, as projeções são de governo e oposição digladiando-se para  ver quem se mantem mais unido. 

Apesar dos cenários que se possam traçar, a busca da figura de Maduro representa a tentativa de dar mais fôlego e vitalidade a um partido que sempre esteve muito centralizado na imagem do líder bolivariano. Independentemente de o presidente melhorar ou não, o cenário revela preocupações de sucessão de um PSUV pós-Chávez que, como o líder bolivariano, parece também ter adoecido.

[Para mais: 1, 2, 3, 4]


Categorias: Américas, Polêmica, Política e Política Externa


2 comments
Raphael Lima
Raphael Lima

Caro leitor anônimo,O objetivo do post foi propor questionamento das dificuldades para os ideias de Chávez na ausência de seu líder. Não se fez crítica às políticas, mas sim apontou-se a dificuldade de manter um conceito de "revolução bolivariana", que é muito centrado no seu líder, frente a uma oposição dividida e a diferenças dentro do próprio PSUV. O título, como o artigo, sugere que o Chavismo está passando por uma dificuldade, uma espécie de doença. O tempo dirá se haverá "cura" ou se poderá ser o fim da proposta de Chávez. Estamos abertos ao debate!

Anonymous
Anonymous

Mas que barbaridade! O chavismo sai vencedor em 19 dos 23 estados bolivianos e o articulista sai com essa chamada!!! Bota tendenciosismo nisso!! Vocês só escrevem o que o sionismo autoriza...