O cálculo da intolerância

Por

O HOMEM q calculava

Um dos meus livros favoritos até hoje é “O homem que calculava”. Escrito nos anos 30 pelo professor Júlio César de Mello e Souza, mais famoso como Malba Tahan, narra as aventuras do bom e justo Beremiz Samir resolvendo problemas com sua prodigiosa habilidade com números. Mais do que ajudar a despertar o amor pela matemática recreativa, o livro também mostra um pouco do ambiente do Oriente Médio antigo, inclusive com figuras históricas reais. Apesar de no final o protagonista muçulmano se converter ao cristianismo (literalmente no último parágrafo, o que ficou meio estranho para dizer a verdade), a mensagem que transparece é de tolerância, e apesar do contorno fantasioso, é sabido que o grau de aceitação de outras culturas em certas regiões do Oriente Médio sempre foi muito alto. Basta ver como traços de diferentes culturas e ciências foram legados pelos povos de lá. O próprio Líbano, a despeito de anos de guerra civil nos anos 80, é um dos países mais cosmopolitas do mundo hoje.

A razão de ter feito essa introdução é para, mais uma vez, comentar sobre a violência insensata no Oriente Médio. Enquanto podemos dizer que na Síria se pratica uma guerra contra a humanidade, já que todos os lados cometem violações humanitárias, no Iraque o aumento da violência do grupo Estado Islâmico é aterradora, com imagens de decapitações e a noticia de pessoas do mundo todo largando suas vidas para se juntar a essa causa extrema causando comoção internacional. E a razão, em boa parte, é a intolerância.

Não devemos dizer que a região sempre foi um mar de rosas, mas geralmente a culpa dos problemas recai sobre os países ocidentais, das Cruzadas à desastrada divisão política da região entre as potências no período entre guerras. O mesmo vale para hoje. Os EUA tem sua culpa em pelo menos 3 dos conflitos violentos de agora (dando costas quentes a Israel no caso da faixa de Gaza, sendo os culpados pela falência do Iraque que deu força ao ISIS no país, e armando os rebeldes sírios que por sua vez estão ligados aos grupos radicais anti-americanos). O descontrole que toma os beligerantes é impulsionado pela ação externa, e o resultado é a violência. Mas é incrível perceber o contraste. A base do conflito entre Israel e palestinos é a não aceitação da existência do outro lado por algumas lideranças. O conflito sectário da Síria tem como resultado a perseguição a minorias como os alauítas, protegidos de Assad. E o ISIS, que quer restabelecer os califados da época do livro, parece se esquecer da parte em que aceitavam a presença de estrangeiros e outras religiões enquanto pratica atos de selvageria que literalmente os isolam da opinião pública internacional.

Infelizmente, não é algo exclusivo dessa região. Intolerância é algo que parece próprio do ser humano, e não precisamos ir longe para ver seus matizes mais variados em aspectos como a vida política (basta acompanhar a irracionalidade de alguns argumentos no debate eleitoral desse ano) ou até mesmo as brigas entre torcidas de futebol. A violência do ISIS, apesar de lamentável, nem é inédita na história da humanidade (apesar de fazer com que regridamos a tempos bem mais infelizes).

Porém, a grande ironia é ver como este ponto nodal do planeta, onde tantas culturas interagem há milênios, e que poderia ser (como já foi) um ponto de entendimento e verdadeira comunidade internacional, hoje é um barril de pólvora banhado a sangue. Aqui mais uma vez o livro de Malba Tahan é ilustrativo – a história se encerra relatando a invasão mongol de Bagdá, justamente o evento que desarticulou por séculos a política regional e, de certo modo, foi o começo dessa espiral de violência identitária.


Categorias: África, Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Segurança