O Brasil na luta global contra a fome

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Se, até agora, o Brasil ainda sonha com um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, a conquista do cargo de diretor-geral no órgão da organização para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) é uma realidade. Finalmente, um cargo de liderança na principal organização internacional (relembre, por exemplo, neste post do Alcir, uma manobra diplomática pouco entendida em relação a uma possível eleição para a Unesco). José Graziano, ex-ministro do governo Lula e atual representante da FAO para América Latina e Caribe, assumiu o cargo, após derrotar o diplomata espanhol Miguel Moratinos na eleição realizada no último domingo. Essa vitória – apertada, diga-se de passagem, 92 votos contra 88 – ocorreu graças ao apoio maciço dos países em desenvolvimento.

Quais as implicações dessa posição recentemente alcançada? O que isso representa para o Brasil? Primeiramente, ressalta-se que a missão da FAO é combater a insegurança alimentar. Isso é consonante com a prioridade do atual governo, iniciada nos dois mandatos anteriores de Lula: a luta contra a fome. No discurso de posse, a presidenta Dilma Roussef anunciou que a erradicação da fome e da miséria ditará a tônica deste quadriênio, o que pode ser confirmado com o lançamento, neste mês, do programa “Brasil Sem Miséria”.

Em segundo lugar, do ponto de vista das relações internacionais, observou-se, em outro post, que a questão dos alimentos está se tornando um tema cada vez mais sensível. Os preços subiram, estão 36% mais altos que há um ano, e um novo aumento de 10% poderia deixar mais de 10 milhões de pessoas na pobreza extrema. Um exemplo prático: se o preço do pão aumenta para um norte-americano, ele comprará menos pão; porém, se o preço aumentar para um congolês, ele poderá fazer apenas uma refeição diária. O Brasil ocupa, institucionalmente, uma posição de liderança na luta contra a fome e a miséria e deve enfrentar desafios.

O baixo orçamento da FAO é o primeiro deles. A organização dispõe apenas de 2,2 bilhões de dólares até o ano de 2013, dos quais 65% são destinado para o pagamento de funcionários. Para se ter uma ideia, é menor do que a verba destinada aos programas Fome Zero (US$ 4 bilhões) e Bolsa Família (US$ 7 bilhões). O segundo desafio é que os alimentos estão ameaçando travar as negociações comerciais e financeiras. O G-20 econômico, grupo constituído pelas vinte maiores economias do mundo, discute a possibilidade de se criar um mercado, um banco ou um estoque global de alimentos, bem como elevar a produção, para controlar o preço. Os países em desenvolvimento discordam.

O que fazer com os alimentos? Como eliminar a insegurança alimentar? Aí também acaba entrando meio ambiente, urbanização, crescimento populacional e outras questões. A recente conquista do cargo na FAO, para além das manobras políticas, indica a relevância, interna e externamente, que o Brasil atribui à questão da fome. Particularmente, nas relações internacionais, essa luta demonstra a continuidade da estratégia adotada, pelo país, de inversão da agenda internacional, priorizando o combate global à fome em detrimento do combate global ao terrorismo. E também traz novas responsabilidades, para as quais o país deve estar preparado.


Categorias: Brasil, Política e Política Externa


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