O Brasil na inesgotável era do petróleo

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[Este post foi escrito em conjunto com o meu irmão, Giuliano Keisuke Chinaglia Okado, aluno do 5º ano do curso de Engenharia Mecânica da Unicamp.]


A era do petróleo se iniciou no final do século XIX, quando essa reserva mineral se converteu na principal fonte de energia do modelo urbano-industrial até agora vigente, e deve permanecer, no mínimo, pelas próximas três ou quatro décadas, principalmente por causa do apetite voraz chinês, responsável, sozinho, por 50% do aumento da demanda. Atualmente, a matriz energética mundial é dependente dos hidrocarbonetos em 65%, a produção é de aproximadamente 80 milhões de barris por dia, dos quais 10 milhões são produzidos pela Arábia Saudita e 22 milhões são consumidos pelos Estados Unidos.

O petróleo importa e continuará importando, a despeito da utilização de fontes alternativas de energia e de recursos menos poluentes. Para se ter uma ideia, o carvão é o recurso energético mais abundante e a há grande quantidade de urânio, mas predomina o petróleo. Assim, não seria exagerado dizer que quem controlá-lo, controlará parte do poder mundial. Atualmente, as três principais reservas estão localizadas na Ásia Central, na África (sobretudo, na Nigéria e no Sudão) e no Brasil, com a descoberta do pré-sal.

Por falar no pré-sal, uma atmosfera de mitos encobre a realidade presente. O que parece fácil não é. Já se afirmou, por exemplo, que a exploração do pré-sal ultrapassa toda a tecnologia conhecida no mundo, comparando-a com a primeiras viagens espaciais. O pré-sal é um marco nas atividades no cenário da exploração e produção de petróleo no Brasil. Até então, o país possuía plataformas offshore (aquelas que operam no mar) com capacidade de produção em lâminas d’água de até 2000 m de profundidade. As rochas reservatórios do pré-sal estão situadas em uma profundidade de aproximadamente 7000 m, disposta da seguinte maneira: lâmina d’água de 2000 m, uma camada de sal de 2000 m, uma camada pré-sal de 2000 m e uma camada pós-sal de 1000 m. A primeira grande descoberta foi o Pólo de Tupi. Esse reservatório é bastante heterogêneo, possui uma reserva estimada de 50 a 80 bilhões de barris, porém, inicialmente, será possível produzir apenas de 5 a 8 bilhões de barris.

Entre as principias dificuldades da exploração do pré-sal, destacam-se: a) a rocha carbonática apresenta características de porosidade e permeabilidade distintas ao longo do reservatório, dificultando a modelagem e o estudo do mesmo; b) a rocha reservatório possui grande resistência à penetração de brocas, aumentando o tempo de perfuração e custo; c) há poucos reservatórios análogos no mundo com características rocha/fluido semelhantes e perfil de produção semelhante; d) as camadas de sal são instáveis e solúveis em água, prejudicando a estabilidade do poço; e) os componentes sólidos produzidos formam incrustações na coluna de produção, sendo difícil sua remoção em grandes tubulações; f) equipamentos utilizados em poços profundos exigem o desenvolvimento de tecnologias que suportem as altas pressões. Portanto, o ouro negro não surge da noite para o dia.

[Vejam este esquema sobre as dificuldades da extração do pré-sal e leiam este artigo sobre o desafio industrial que ele acarreta.]

Outro mito a ser desvendado é a “autossuficiência” brasileira. O Brasil, mesmo autossuficiente em petróleo, ainda é dependente da importação dos óleos leves, que são aqueles que possuem maior valor de mercado, já que os produtos mais nobres derivam dos componentes leves, tais como gasolina, diesel, GLP (gás liquefeito de petróleo). A bacia de Campos, principal produtora de petróleo no Brasil, produz óleo com baixo grau API (óleo pesado), entre 18º e 20º. Este paradigma pode ser mudado com a extração de petróleo do pré-sal, já que o fluído é um óleo leve, com valor estimado de 28º API.

É fato que o pré-sal confere ao Brasil um lugar privilegiado e sem precedentes na geopolítica mundial do petróleo. No entanto, é preciso transcender o deleite do imediatismo, os surtos ufanistas do “bilhete premiado” que não garante a entrada automática no rol das grandes potências mundiais e a ausência de um grande projeto estratégico para a nação. Do contrário, estamos fadados a alimentar os sonhos do irrealizável e a cair no círculo vicioso dos quinze maiores exportadores de petróleo, que, com a exceção da Noruega, não figuram entre os trinta primeiros colocados no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). De nada adianta um amento em torno de US$ 600 bilhões a US$ 1 trilhão no PIB brasileiro, sabe-se lá quando, para nos tornamos uma Guiné Equatorial na América do Sul. Só falar não basta, é preciso agir!

[Acompanhem estes três artigos publicados na revista Interesse Nacional – 1, 2 e 3 – estes outros três artigos – 1, 2 e 3.]


Categorias: Brasil, Economia


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