O Brasil diante das commodities

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Uma música de Chico Buarque começa com a seguinte frase: “Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês”. Em tempos atuais, os cavalos estão aprendendo outros idiomas, à procura de outros heróis, na gramática da economia. Os desequilíbrios cambiais travaram o G-20, a crise continua debelando a Europa e as commodities estão em ascensão. Este ponto é bastante interessante ao Brasil, ainda mais neste contexto que parece relembrar a “beggar thy neighbour policy” do período da Grande Depressão: cada um contando consigo mesmo e procurando benefícios à custa dos demais.

[Relembrem um post do Luís Felipe atinente ao assunto aqui tratado.]

Ora, as commodities, que nunca partiram, agora também voltaram, na mesma expressão utilizada ontem pelo Álvaro sobre o Wikileaks. Em sua formação histórica, o Brasil atravessou os ciclos econômicos da cana, mineração, borracha e café. O último foi levado a condições mais extremas, de tal sorte que nas três primeiras décadas do século XX, pensou-se que fazer política externa era sinônimo de fazer a política do café, combinação que para Clodoaldo Bueno criou o conceito “diplomacia agroexportadora”. Com a volta das commodities, a questão que se tem colocado: elas são uma benção ou uma maldição?

As análises correntes convergem para considerá-las como uma benção, desde que adequadamente aproveitadas as oportunidades e que não se crie uma dependência direta delas. Outro ponto chave é evitar o que se convencionou chamar de “doença holandesa”, em que a exportação de commodities gera a desindustrialização – foi o que ocorreu na Holanda na década de 1970, quando a descoberta de uma grande fonte de gás natural provocou o declínio do setor industrial. Todavia, embora alguns indicadores brasileiros aparentemente sugiram tal processo – a participação da indústria no PIB era de 33% entre 1991-1995 e passou para 22% entre 2001-2005 –, não se pode explicá-lo apenas pelas exportações de commodities, como avalia Geraldo Lopes de Souza Júnior, senão também por outras razões como ausência de política científica e tecnológica, deterioração da infra-estrutura, altos impostos e juros, etc. Ademais, o Brasil vem diversificando a sua pauta de exportações desde a década de 1970, quando produtos básicos representavam 74,8% das exportações, caindo para 22,8% em 2000 e subindo para 36,9% em 2008.

Hoje mesmo, em seu blog, Raquel Landim destacou o apetite chinês pelo petróleo brasileiro. Diante desse quadro, o nosso “bilhete premiado”, isto é, o pré-sal, de fato se apresenta como uma grande oportunidade. Também é válido notar que por onde o agronegócio – capitaneado pela soja – tem avançado, especialmente na região Centro-Oeste, a pobreza tem diminuído. Enfim, para a economia brasileira, as commodities, se manejadas cuidadosamente, podem trazer grandes vantagens para um economiquês carente de novos idiomas, de modo a encontrar caminhos no meio da atual crise mundial.


Categorias: Brasil, Economia


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