O bom e velho xadrez russo

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É, as notícias estão cada vez mais repetitivas. É Irã para um lado, Coréia do Norte para outro. Tropas saindo das cidades no Iraque, golpe em Honduras e assim por diante. Nas Relações Internacionais, dizem que o termo “anarquia” pressupõe a inexistência de um governo mundial e não caos ou desordem. Mas os conceitos estão mudando. Confusão é a palavra de ordem.

Apesar de todas as coisas que estão sendo evidenciadas diariamente na mídia, criemos uma rota de fuga; andemos em direção à Rússia. Por mais que os holofotes midiáticos globais não repousem sobre o país, ele está movimentando suas peças no seu tradicional jogo de xadrez. O governo russo quer se tornar um exímio enxadrista, à semelhança do gênio Kasparov, e, mais do que vencer, joga por poder. Por um lado, quer dar xeque-mate no avanço chinês sobre a África, por outro, quer dar um “pastorzinho” nos seus vizinhos pós-soviéticos. Não obstante, está sofrendo fortes influências dos Estados Unidos.

Aliás, qualquer mera semelhança dos atuais acontecimentos com a Guerra Fria não parece completamente descabida.

A Rússia volta a lançar os seus interesses sobre a África. (Vejam esta matéria) Desta vez, é a economia que nutre a penetração russa e não a ideologia. O presidente Dmitri Medvedev, acompanhado por empresários e representantes industriais, visitou quatro países detentores de riquezas no subsolo – Egito, Nigéria, Namíbia e Angola. Pois é, o país quer sugar o que resta de energia do continente africano. Só que chegou tarde, a China se antecipou aos russos e está na frente na corrida por recursos energéticos. Nesta partida, é mais fácil levar do que dar um xeque-mate, pois a concorrência é muito forte.

Noutra partida, o olhar russo volta-se para o seu ex-quintal, onde o restabelecimento da antiga influência parece uma quimera. Dizem que a perda da influência sobre as antigas repúblicas soviéticas é tão dolorosa quanto à amputação de um membro do corpo. (Vejam esta análise) Há desencontro gritantes no antigo bloco comunista. Lealdade não se compra apenas com promessas financeiras quando os ares da liberdade são ainda mais apaixonantes. Os vizinhos russos pós-soviéticos querem seguir seu próprio destino e preferem a Europa à volta do domínio soviético. Não se vence essa partida com apenas quatro jogadas.

E quem resiste ao poder de sedução norte-americano? Nem mesmo a Rússia. No início deste mês, o governo russo autorizou a passagem de armas norte-americanas – destinadas ao abastecimento das tropas dos EUA no Afeganistão – pelo seu território. A iniciativa é vista como um agrado ao governo norte-americano, no sentido de ampliar os esforços para a aproximação entre Moscou e Washington. Ademais, ontem, Obama foi à Rússia para negociar com Medvedev um novo tratado de redução de ogivas nucleares, em substituição ao Start, assinado em 1991 e que expira em dezembro. (Vejam o que está em questão) Estão reescrevendo a détente e reeditando uma amizade entre inimigos. Ainda é cedo para tirarmos conclusões sobre esse fato, mas algo de interessante deverá ser revelado.

É, Medvedev, a Rússia não tem mais a grandeza da União Soviética. Não consegue restabelecer a sua antiga hegemonia e nem recuperar antigos aliados. Pior do que isso é ser cooptada por seu rival histórico. No seu jogo de xadrez, está chegando o momento em que o governo russo escolherá entre o cavalo e o bispo, porque a rainha… Ah, esta ele perdeu faz tempo! Andar em “L” pela Europa Oriental ou em diagonal rumo à África, eis o dilema shakespeariano russo.



Categorias: Política e Política Externa


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