O bilhete dourado

Por


Desde a década de 1970, a comunidade internacional criou frutíferos espaços de discussão sobre o modelo de desenvolvimento sobre o qual estávamos baseados. Pensando as esferas econômico, social, ambiental e mesmo cultural, afigurava-se um entendimento que as bases para a construção da bonança econômica de muitas regiões e países não era sustentável, e mais que isso, traziam uma perspectiva que sua continuidade não era exeqüível. Era premente, portanto, o surgimento de uma nova Era, assentada na sustentabilidade.  

Dessa maneira, formaram-se comitês, grupos de trabalho; aprovaram-se protocolos e convenções sobre a proteção ao Meio-Ambiente. Tal temática logrou até mesmo ser adotada como uma das vertentes da segurança internacional, à medida que poderiam desencadear querelas entre Estados ou mesmo inter-estatais. Antes de tudo, explorar recursos naturais em prol do desenvolvimento econômico passou a ser componente do Regime Internacional dos Direitos Humanos, parte integrante de nossa missão de garantir a dignidade humana sem desprover as próximas gerações das condições para seu pleno bem-estar.  

As empresas são parte fundamental da equação que todos tentam resolver. Em grande medida, corporações multilaterais ditam a definição de políticas públicas e a regulação a sua própria atuação. São mais poderosos que muitos Estados e suas instituições. A revolução proporcionada pela globalização tem como importantes agentes as empresas de presença ou alcance mundial. Viajando pelo mundo, uma pessoa encontrará a mesma rede de serviços de entrega, os mesmos restaurantes, as mesmas revistas e, em muitos casos, o mesmo padrão de consumo ou preferência de produtos.  

O modelo antigo de desenvolvimento, pautado na exploração de recursos não-renováveis, na despreocupação com o Meio-Ambiente e na falta de regulação estatal, continuava sendo amplamente questionado. Antes de mudar sua gestão, grandes corporações buscaram refúgios, ou seja, países que permitiam a continuidade de práticas não mais aceitas nos ditos países desenvolvidos. Aos olhos de consumidores exigentes – essencialmente europeus – tais empresas vendiam um modelo diferente do que realmente aplicavam. Ao mesmo tempo, desrespeitavam direitos trabalhistas, poluíam indiscriminadamente o Meio-Ambiente e não contribuíam para o desenvolvimento comunitário ou para a mitigação dos efeitos nefastos que criavam.  

Criaram-se os Objetivos do Milênio para os líderes mundiais. Logo, o setor privado viu formarem-se iniciativas que concerniam a suas atividades, tal como o Pacto Global, a ISO 26000 (que será publica em dezembro) e o fortalecimento do conceito de Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Desde então, ter uma gestão ou práticas responsáveis passou a ser um ativo para a valorização de uma marca. Existem empresas que adotam de forma espontânea tais mecanismos, por acreditar que estes fariam seus processo mais eficientes e resultados mais efetivos. Por outro lado, para muitas outros setores corporativos a Responsabilidade Social Empresarial (considerando suas 7 áreas base) é uma somente estratégia de compatibilização com a nova e emergente onda de sustentabilidade. 

Segundo especialistas, a principal fortaleza da RSE é a voluntariedade de sua adoção. Há a obrigação de seguir a legislação ambiental e trabalhista, por exemplo, contudo não existe regulações para a interação com a comunidade e fornecedores, ou adoção do comércio justo, entre outras. Qualquer empresa pode escolher se quer avaliar (através de indicadores de institutos especializados) seu índice de Responsabilidade Social, para assim adotar novas técnicas de gestão para dirimir seus pontos débeis. Ter um certificado de empresa socialmente sustentável pode ser visto como um mero investimento, aumentando a atração da marca e consequentemente atraindo novos consumidores. Por tal razão, tal certificado não existe (a ISO 26000 não é “certificável”). O bilhete dourado, no final das contas, não é tão fácil de encontrar. Cada vez mais, as empresas falsamente responsáveis ou que utilizam tal conceito como ferramenta de marketing antes que de ações efetivas, serão desmascaradas.  


Categorias: Organizações Internacionais, Política e Política Externa


0 comments