O ápice da miséria

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“É preciso estudar as misérias dos homens, 

incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm

 quanto aos meios para combatê-las. “

A Vontade de Poder – F. Nietzsche

Procurando em qualquer dicionário, a miséria significa falta de recursos, penúria, pobreza, estado indigno e vergonhoso, falta de necessidade à vida. E não por menos Victor Hugo escreveu Les Misérables e retratou grande parte dessas características nos cinco volumes da extensa obra. Para quem já leu o livro ou assistiu ao musical lançado em 2012, logo reconhece as figuras de Fantine e Cosette, mãe e filha retratadas em inúmeras passagens como símbolo da pobreza miserável. É uma carência econômica e sentimental, mas em nenhum ponto moral. Até o personagem central, Jean Valjean, retrata este ponto com maestria: condenado por roubar um pão, passou dezenove anos na prisão e depois se reergueu, alcançando o posto de dono de fábrica e prefeito. 

A miséria no sentido de falta de recursos é dolorida. Dói ver as carências e as necessidades das pessoas que não estão lá por livre e espontânea vontade. Todavia, nada se compara à miséria de ideais. É dela que vem a intolerância, o “pó embaixo do tapete”, o “lobo em pele de cordeiro”. E, neste caso, a pele figura-se como muitas outras: um belo terno e uma gravata para passar na porta sem ser barrado por quaisquer seguranças. 

É assim que se transpassa o enredo de “Os Miseráveis” para a atual conjuntura da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Não é uma pobreza financeira, muito pelo contrário, mas uma pobreza de respeito ao outro, o qual ainda é muito visto como “o diferente”. Na verdade não é, mas para a grande massa “impensante” do Brasil acaba sendo. O ódio acaba nascendo em virtude do olhar sorrateiro, daquele que vê com repulsa, mas vira o rosto quando é percebido. 

Não se pode generalizar em momento algum. Não se trata de uma miséria da CDHM como um todo, e sim somente de um pequeno grupo que deve estar presente. Todavia não deve mandar e desmandar nas diretrizes propostas pela comissão. Como já é sabido por grande maioria, o Deputado Domingos Dutra (PT-MA) renunciou ao posto de presidente da comissão no dia 07 do presente mês promovendo um discurso no qual chamou de farsa e ditadura o que viria a acontecer dali pra frente. 

Fonte: camaraempauta.com.br

Entrou em cena o “homem da vez”: o Deputado vulgo Pastor ou Pastor vulgo Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) (foto), declaradamente homofóbico e racista. Disse, no Twitter, que os africanos são descendentes de ancestrais amaldiçoados por Noé. Totalmente contraditório com o que está escrito na página inicial do seu partido, o Social Cristão. “O ser humano em primeiro lugar”, é a grafia oficial da organização. 

Como consequência da indicação de Marco Feliciano, uma série de protestos da sociedade civil e dos próprios deputados tomou proporções gigantescas. Logo na primeira sessão comandada pelo pastor, houve confusão generalizada e até o Deputado Jair Bolsonaro, sempre polêmico e intransigente, estava lá apoiando o novo presidente.

O caso da CDHM é apenas o ápice de um problema bem maior, cujas raízes estão fincadas no alto grau de ligação entre política e religião no Brasil. Teoricamente, o Estado é laico, ou seja, neutro em questões religiosas. Entretanto, na prática o que acontece é o oposto: há, inclusive, casos de reuniões evangélicas na própria Câmara entre os deputados. Se isso contraria a Constituição e deixa de abranger inúmeros outros credos e ideais, é, no mínimo, miserável no sentido de não ter valor. 

Fica-se, portanto, o recado dado. Não se trata de um pastor, uma religião, um partido. Trata-se de um movimento maior e não democrático. Um movimento extremamente conservador e ortodoxo em sua essência, o qual, por conseguinte, barra o avanço da democracia brasileira. Pode ser evangélico, católico, testemunha de Jeová ou qualquer credo, isso independe do cerne da questão. O episódio da CDHM é o ápice da miséria partidária e política que vivenciamos. O Estado deve ser laico e ponto! Caso contrário, os direitos jamais serão humanos e nunca haverá democracia no sentido mais puro da palavra. Continuará imperando até o que denominaram de “Jesuscracia”. Pode não ser verdade e seria engraçado se não fosse trágico.


Categorias: Brasil, Mídia, Polêmica


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