O absolutismo midiático

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Há alguns meses, a Time Magazine levou em sua capa a reportagem sobre Bibi Aisha, afegã mutilada pelo regime do Talibã. A imagem escolhida causou comoção mundial, acompanhada do subtítulo ‘What happens if we leave Afghanistan’. Segundo o diretor de redação da Time, Richard Stengel, a decisão da imagem de capa foi muito refletida, emendando que “coisas ruins acontecem com as pessoas, e é parte do nosso trabalho confrontar essa realidade e explicá-la”.

Poucos dias antes, milhares de documentos oficiais americanos vazaram na internet, mostrando os acontecimentos da guerra no Afeganistão desde 2004. O WikiLeaks (leak = vazamento) é um site colaborativo que permite a qualquer pessoa publicar informação que julgue relevante, com foco em divulgar informações sigilosas. No caso do Afeganistão, o resultado foi a exposição de um fracasso absoluto em estabelecer paz e reconstruir o país. Mais do que um vídeo com imagens degradantes de soldados americanos humilhando prisioneiros, e que pode com pouco esforço da Casa Branca ser atribuído a indivíduos e não à instituição, essa série de documentos exibe a força que os talibãs resgataram durante todo esse tempo, além de sentenças e execuções sumárias por parte da ISAF (Força Internacional de Assistência à Segurança no Afeganistão, a missão da ONU e OTAN para segurança, reconstrução, desenvolvimento e governança no país).

E eis que logo após isso, vem a reportagem da Time e o questionamento na capa de ‘o que acontece se nós deixarmos o Afeganistão’. Longe de questionar o sofrimento que Aisha passou, gostaria de atentar para outro ponto, levantado por Serge Halimi, diretor do Le Monde Diplomatique na França.

Imagens são há muito os estandartes de argumentos e idéias que se queiram levar adiante. A imagem de Sakineh revela algo sobre o regime iraniano? Fraudes eleitorais, desenvolvimento social? Não. Entretanto, apresenta-se diretamente vinculada ao crescimento da opinião pública que apóia o aumento de sanções econômicas ao Irã.

Da mesma forma, Aisha e seu rosto mutilado tampouco mostram o enriquecimento do Talebã, a governança da região, a participação do ópio na economia local, a guerra travada desde 2001. Ainda assim, a sua imagem causa indignação e um instantâneo alinhamento da opinião pública com a continuidade das forças armadas em solo afegão. Afinal de contas, o tempo que levamos para formar um conceito quando nos confrontamos com uma imagem é infinitamente menor do que a leitura de muitas páginas de documentos.

Deixando claro que não defendo o regime iraniano ou o Talibã, minha única intenção com esse post é a seguinte: até que ponto haverá mais mutilação feminina se os Aliados abandonarem o Afeganistão? Afinal de contas, a sua presença lá por quase dez anos não impede que elas continuem a ocorrer.


Categorias: Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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