O 11/09 solidário

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Hoje, vamos falar um pouco mais do 11 de setembro, sob uma perspectiva meio diferente (ou pouco vista). Quando pensamos nos resultados dos atentados, sempre vem à nossa mente a questão dos ataques terroristas, intervenções militares e tantas mortes que vieram na sua esteira. Mas, no que pesem essas consequências nefastas, houve em algum momento algo de bom que veio desses atentados (e não, não estou falando da alegria daqueles que comemoravam a punhalada no coração do “grande satã imperialista”). É o que poderíamos chamar de solidariedade pós-atentados. Mas talvez o tema principal seja, na verdade, como é fácil se esvaziar esse sentimento.

Muita gente não se lembra, mas foi o 11/09 que possibilitou o início da Rodada Doha de negociações da OMC. A discussão da chamada “Rodada do Desenvolvimento” estava planejada para ter início em novembro daquele ano. Quando o momento chegou, por mais que houvesse dificuldades de planejamento, pauta e negociações, havia um grande clima de otimismo. Mesmo por que não havia um objetivo mais justo do que derrubar barreiras comerciais, abrir mercados e facilitar a vida dos países subdesenvolvidos. E, acima de tudo, nenhum país do mundo, naquele momento de perplexidade, pouco mais de um mês depois dos atentados, queria fazer o papel de vilão mundial e travar as discussões dessa tão nobre empreitada. Claro que os objetivos estavam traçados para 2006, não saiu nada até agora e a rodada foi pro vinagre faz tempo, mas que em algum momento houve uma certa boa-vontade, ah, isso houve.

Por outro lado, havia aquela solidariedade mais atávica, dos momentos imediatamente posteriores aos ataques. Não apenas nos EUA, mas também quando as bombas estouraram em Madri e Londres, o mundo se pôs ao lado dos que foram vitimados pelo terror. Os EUA tiveram uma onde de popularidade tão grande podemos até imaginar se isso não pareceu uma “carta branca” ao país e isso não afetou a sua decisão de invadir, por exemplo, o Afeganistão. Alguns dizem que a escolha desse país como refúgio para Bin Laden era, além do governo simpático à sua causa, justamente pelo fato de que a proximidade com a Rússia, China e Paquistão colocaria os EUA em posição complicada caso escolhesse ir atrás dele e mexer no delicado equilíbrio de poder na região. Mas o que aconteceu? A Rússia apoiou, a China deu de ombros e o Paquistão virou o melhor amigo dos EUA na região (até pouco tempo atrás), tudo isso reflexo dessa “solidarização”. O que aconteceu depois disso é questionável, mas não podemos negar que quem sofreu com os atentados esteve com a corda toda por algum tempo.

Mas por que essa solidariedade evapora? É interessante reparar como o mundo se une em casos de grandes desastres como os terremotos da Turquia ou da China, ou o tsunami do Japão. Todos foram desastres que vieram depois do 11/09, vitimaram muito mais gente, e causaram muito mais estrago material. A solidariedade foi bem mais duradoura.

Talvez tenhamos citado casos muito impróprios pra exemplificar essa solidariedade pós-11/09. O comércio internacional é uma arena travada e onde prevalecem os interesses egoístas de cada ente – a esperança de Doha foi mera politicagem. Já as reações militares nem precisam de muita explicação – retaliação de mortes com mais mortes não poderia ter outro resultado que fazer ruir a imagem dos EUA em muitos lugares. Claro que ambos os casos acabaram tendo efeitos secundários surpreendentes. Só para constar, houve a união dos países em desenvolvimento para dar mais força a suas reivindicações (e unindo interesses comerciais tão divergentes como de Índia e Brasil) e a rejeição generalizada (que, portanto, uniu ideologicamente muitos grupos e países) aos EUA em boa parte do mundo islâmico.

Talvez, a verdadeira solidariedade não possa advir de um evento tão catastrófico. O impacto das imagens e da matança de inocentes pode ser um elemento de choque que causou simpatia momentânea, mas no fim das contas pode ser que nada de bom realmente venha da violência, ainda mais quando respondida com mais violência. Fica essa indagação para o futuro.


Categorias: Economia, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Post Especial


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