O 11/09 e os mistérios do tempo

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Sabemos que houve guerras, que há guerras, e sabemos que ainda sim Deus será sempre exaltado entre as nações.”
Obama, em discurso relembrando os 10 anos do 11/09.


Neste mês de setembro, a Página Internacional está aberta a análises sobre um dos acontecimentos mais memoráveis da história contemporânea, que agora completa dez anos. Nem sempre é fácil falar do 11/09, muito menos tão bem quanto o Danillo Alarcon o fez em seu post (aqui), principalmente porque se perdeu a dimensão do tempo. Dez anos, para a investigação histórica, é um período muito curto, mas, paradoxalmente, para o mundo de hoje, caracterizado pela revolução técnico-científica – com ênfase nas comunicações –, grandes transformações, boas ou ruins, surgem em instantes.

Notem, leitores, que se comemora trinta anos da descoberta do vírus HIV/AIDS em 2011. Até o momento, apesar das inovações em pesquisa e tecnologia, só há um caso de cura diagnosticado, que é fortuito e, ao mesmo tempo, emblemático. O terrorismo, por sua vez, em meio a esse ambiente de inovações, rompeu os limites da história e provocou um espetáculo áudio-visual jamais visto. Sua cura, em geral, é fortuita e emblemática, na medida em que, ainda que grupos terroristas renunciem à prática do terror, o fenômeno permanece e pode inspirar corações e mentes na luta por uma causa ou ideia (recordem o fato ocorrido na Noruega há dois meses).

A grande questão, dez anos passados do 11/09, é como vencer o terrorismo. Ao menos, esta foi a meta expressamente declarada pelos governos norte-americanos ao se lançarem em uma aventura homérica e quimérica no período em tela. Foi preciso inventar uma Guerra Global ao Terror, territorialmente aberta e sem inimigos claramente definidos, para promover a segurança interna dos cidadãos norte-americanos e sustentar a hegemonia dos Estados Unidos pelo mundo. Mas ‘guerra’ é um conceito absolutamente vago para as manobras norte-americanas, uma vez que padece de um objetivo político claro – combater o terrorismo é lutar contra a insurgência afegã? É depor Saddam Hussein? – e perde o sentido de vitória. Então, a guerra passa a seguir uma lógica própria, com suas leis e dinâmicas.

O velho Marx, com sua máxima “a história se repete, primeiro, como tragédia, depois, como farsa”, teria muito a dizer sobre os Estados Unidos hoje. A guerra contra o Afeganistão é a repetição trágica do indigesto Vietnã e a guerra contra o Iraque, a repetição como farsa. Não apenas pela retórica das armas de destruição em massa do governo de Saddam Hussein, mas também pela manifestação mais expressiva (e incansável) da idiotia norte-americana, agora, sob a égide da Guerra Global ao Terror. Cada vez mais, guerreia-se por guerrear, em defesa da honra, não de objetivos, o que aumenta, sobretudo, o custo político. O jornalista Thomas Friedman, recorrentemente, afirma que essa guerra deixou de ser sobre o que ganhar e passou a ser sobre o que se está disposto a perder. Vencer já não é possível.

O tempo é mesmo uma coisa misteriosa. A história tem ensinado que o terrorismo é praticamente insuperável quando combatido pela força das armas, pior ainda quando estas falam por si mesmas. Guerras passadas, similares no campo de batalha, demonstraram os limites da superioridade do mais forte. De que adianta ter o maior poderio militar do mundo se não saber como utilizá-lo? De que adianta o conhecimento técnico-científico se se esquece as lições dos livros, da teoria da guerra e da estratégia? Em dez anos, em uma era de informações e comunicações, esqueceu-se de grandes lições do passado, encurtou-se a memória.

O 11/09 é mais uma novidade com o sabor ácido do tempo do que a reinvenção do mundo ou uma grande transformação. É uma ‘não-era’, como bem definiu o Danillo, e não um ponto de inflexão nas relações internacionais. Alguns processos podem ter se acelerado, como o desgaste da hegemonia norte-americana, mas o fizeram em um quadro evolutivo previamente marcado pela ascensão de novos poderes, ameaças transnacionais e globais e de formação de uma bolha econômica, que explodiu em 2008. E, nessa não-era, os Estados Unidos estão fadados a perder.


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