Novos ares, velhos problemas

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Um pouco de ordem no caos – essa é a situação no Quirguistão hoje, ou ao menos a esperança. No domingo ocorreu um referendo na remota ex-república soviética e um resultado histórico e inédito é apontado, com a aprovação popular de uma nova constituição e a instituição de um regime parlamentarista, com eleições previstas para o fim de 2010.

Por si só essa é uma notícia impactante, pois é a primeira vez em que se envereda por um caminho diferente do presidencialismo em um país do antigo bloco soviético. Tecnicamente, uma mudança pra melhor, dado que essa forma de governo tende a ser extremamente centralizadora e envolta em brumas de corrupção e crime organizado por aquelas bandas. Na dita carta magna há também um mecanismo que restringe a porcentagem de cadeiras do partido majoritário, garantindo que sempre haja oposição e diversidade – em teoria, outro fator que restringe a corrupção, mas gera o perigo da instabilidade. Há até mesmo um inspirador ar de autodeterminação pelo apoio popular maciço – uma aprovação de cerca de 90% não é pra qualquer um.

A nova forma de governo vem em boa hora, após o país entrar em colapso e gerar uma onda de protestos e violência que deixou mais de 200 mortos e milhares de desabrigados e refugiados da minoria usbeque. A situação estava tão ruim que há algum tempo o governo interino havia oficialmente pedido ajuda à Rússia para que ajudasse na estabilização da segurança interna (leia-se: exercer a atividade policial), pois o Quirguistão simplesmente não tinha mais capacidade de fazê-lo. É inacreditável o ponto em que se chegou de um governo pedir para delegar seu monopólio do uso legítimo da força a outrem! Essa ajuda foi negada, mas mesmo assim Madmedev mandou tropas… para proteger a base russa no Quirguistão.

Eis o pomo da discórdia: as bases militares de EUA e Rússia, como já visto aqui. Obama e Medvedev podem sair comendo hambúrgueres juntos, como os melhores amigos do mundo, mas ainda têm uma grande divergência no Quirguistão – e parte da demora em resolver a questão tem resposta nessa briga particular. Os EUA são entusiastas e participam ativamente da articulação desse referendo com a óbvia intenção de devolver a estabilidade ao país que abriga a mais importante base norte-americana nas operações da OTAN no Afeganistão.

Já a Rússia não deve estar gostando nada disso, mesmo por que, dizem as más-línguas, já teve trabalho suficiente para derrubar o presidente anterior, pró-EUA, e não esconde de ninguém que exige a remoção da dita base norte-americana. A instauração de um governo parlamentar (teoricamente menos envolvido com corrupção e com maior diversidade política, portanto, menos controlável por Moscou) e simpático aos EUA é mais uma dor de cabeça para o governo russo que aspira a reconstruir sua esfera de influência na região.

Enquanto EUA e Rússia disputam queda de braço pelas bases, o povo do Quirguistão, sejam quirguizes ou usbeques, pagam com seu sangue e a falência da sua nação. Resta a esperança de que um novo governo, com o apoio popular, transparência e apoio internacional, dê fim a esse drama.


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