Novo ano, nem tão novo discurso

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Nesta semana em que se completa mais um ciclo presidencial, a expectativa do que poderemos esperar nos próximos quatro anos vem em grande parte do discurso na posse de Dilma Rousseff, ocorrida ontem. Como esperado, o foco principal foi dado a questões de cunho doméstico, especialmente as mais controvertidas como reforma política e combate à corrupção, mas com especial atenção dada aos problemas da economia. E as relações internacionais com isso?

Do discurso de Dilma, podemos traçar dois pontos principais ligados a relações internacionais, justamente a questão da economia e, de maneira breve (e preocupante), a política externa. Parte de sua fala foi dedicada à questão da necessidade de retomada do crescimento e o temido ajuste de contas públicas. A crise mundial de 2008 não bateu por aqui, mas o problema que era dos europeus naquele momento agora é nosso: como ajeitar as contas sem que o povo pague com benefícios sociais incompatíveis? Basta ver a discussão que rendeu o ajuste nas condições para obtenção do seguro-desemprego (ocorrido no começo da semana) que podemos esperar um ano turbulento, e cheio de protestos, caso esses ajustes sejam feitos como o esperado. Ao mesmo tempo, a retomada do crescimento depende de fatores dos dois lados, dentro e fora, como a alta do dólar (que culpa do aquecimento da economia norte-americana) quanto dos famosos gargalos de desenvolvimento (com problemas de infraestrutura acumulados que agora cobram seu preço para o país). O desafio é grande, especialmente numa semana em que grandes parceiros comerciais do Brasil (e do Mercosul), Argentina e Venezuela, admitem oficialmente que estão em recessão e mostram um cenário sombrio para 2015 no continente.

Isso nos dá o gancho para o segundo ponto – a política exterior. Quem nos acompanha sabe que a diplomacia de Dilma foi no mínimo tímida, em comparação a Lula. As poucas linhas dedicadas ao tema, reforçando o compromisso com o Mercosul e os mercados regionais (em crise) e com a dedicação nas relações Brasil-EUA (abaladas há algum tempo) mostram que a possibilidade de mudança nessa área é pouca, e preocupante. A atenção a crises domésticas, somada a perda de recursos para o MRE (que faz transparecer uma crise existencial no Itamaraty), leva a crer que mais uma vez a política externa será um tema secundário no governo Dilma. Mesmo o relativo sucesso do BRICS pode não ser suficiente para alçar o Brasil àquela posição de protagonismo almejada por tantos anos na época de Lula. Se isso era viável ou não, é outra história, mas o ímpeto não parece o mesmo. A indicação do novo Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, embaixador de carreira em Buenos Aires e Washington, ou seja, um nome extremamente competente, é um bom sinal, já que se trata de uma das poucas escolhas técnicas de Dilma, mas até aí o ex-ministro Patriota também era, e o contexto não leva a crer que vá haver mudanças significativas nesse setor – seria muito mais uma indicação para evitar danos maiores que para buscar novidades em nossa política externa.

2015 está aí, com a novidade e a esperança que sempre acompanha o ano-novo, mas o sinal de alerta está ligado para o Brasil. Cautela e prudência são as palavras-chave para este novo governo, que em face de perturbações domésticas cada vez mais marginaliza oportunidades e importantes questões internacionais.


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