Novas caras de um velho problema

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Hoje é 11 de setembro, e a data é ligada a desastres. Tem quem lembre da queda de Allende no Chile, em que um experimento malsucedido de socialismo deu lugar a uma ditadura pior ainda. Mas é claro que não tem como se fazer qualquer tipo de análise sem lembrarmos a efeméride fatídica de 2001. E talvez seja um ano bem oportuno pra retomarmos aqueles acontecimentos. 

Isso por que toda a discussão acontecendo em torno da Síria representa um dos grandes debates que existe na academia de Relações Internacionais hoje na área de Segurança e Defesa, que são as tais “novas guerras”. Não que a definição do que elas sejam esteja indefinida ainda – é um conceito muito amplo, mas que deixa bem claro do que trata. As guerras clássicas envolviam Estados, tinham uma delimitação clara, mesmo que houvesse alvos civis. Na Segunda Guerra (talvez a última grande guerra entre Estados), havia Eixo e Aliados. Mesmo na Guerra Fria, era EUA x URSS e o resto do mundo pendurado em um dos dois (sem generalizar, claro, por que depois surgem os não alinhados, a China, e por aí vai). Era um mundo mais “fácil” de compreender (isso em termos de análise de conflitos mais tradicional). 

Hoje não. Desde os anos 90, há uma multiplicação de atores envolvidos. Guerras civis explodem dentro de países, opondo grupos étnicos ou religiosos, e seu conflito transborda para os vizinhos. Ou pior ainda, existe o conflito entre Estados, mas não entre os governos, e sim entre milícias e grupos específicos em confronto com grupos de outros Estados (como se vê muito na África). Não é que conflitos dessa natureza não existissem antes, mas agora eles são os mais destacados. Essas “novas guerras” são justamente as assimétricas, em que não se sabe exatamente quais são as partes envolvidas já que são grupos muito heterogêneos, e por vezes sem participação do Estado (ou quando o Estado é falido). 

Aqui entra a questão do 11/09. O ataque a Nova Iorque e Washington mostrou essa capacidade de um inimigo sem face, e teria dado um novo objetivo aos Estados na arena internacional. Acadêmicos norte-americanos abraçaram a ideia de que “a América tinha uma missão a fazer”, e seus políticos entraram na espiral da destruição promovendo guerras que tiveram resultados desastrosos, tanto para os EUA em si, quanto para os países onde ocorrem (até hoje…) os conflitos e suas regiões. Por outro lado, os ataques também representaram a grande “apresentação” para o mundo dessa nova onda de atores e agentes que afetam a segurança internacional de um modo que o sistema tradicional de Estados não está acostumado a lidar. O resultado disso vemos nas diversas guerras das últimas duas décadas, que em sua maioria foram fracassos retumbantes, seja na atuação do sistema ONU, seja nos objetivos dos que iniciaram os conflitos. 

O 11/09 é emblemático como a representação de um mundo em fragmentação. Questões e demandas específicas de atores subnacionais cada vez mais influem nas decisões e ameaçam os atores tradicionais, em um futuro incerto. O desfecho do conflito na Síria é apenas um entre diversos atos de uma grande peça que é novidade no palco internacional e ainda está longe de se encerrar.


Categorias: Conflitos, Defesa, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Paz, Segurança


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