No museu tailandês

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18 de maio, Dia do Museu. Por certo, essa data festiva nos convidaria a uma visita pela história. Esculturas, monumentos, quadros, documentos, enfim, lembranças do passado cujo tempo não feneceu. Na Tailândia, há um museu a céu aberto, do qual foi roubada a relíquia mais valiosa para o cumprimento dos desígnios da nação: a estabilidade política. Isto é coisa de outrora, objeto de contemplação e de disputas. De um lado, o heroísmo de gelo dos manifestantes opositores – os “camisas vermelhas” -, de outro, o despotismo grandiloqüente do governo. Os protestos, que tiveram seu início em março, acabaram se intensificando na última quinta-feira, após o general Khattiya Sawasdipol, participante das reivindicações, ter sido baleado na cabeça. (Assista aqui uma reportagem sobre os confrontos)

Localizada em um ninho de dragões, a Tailândia mal saiu do ovo, mas experimentou um crescimento econômico intermitente (acompanhe os dados do país). Para agravar a situação, enfrenta a maior onda de violência desde os massacres de 1992, quando os manifestantes reivindicavam o retorno da democracia. Os camisas vermelhas, simpatizantes do ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra – deposto em 2006 -, exigem a dissolução do Parlamento pelo atual premiê, Abhisit Vejjajiva, bem com a sua demissão, e a convocação de novas eleições. Neste último ponto, o governo até estava disposto a aquiescer, mas logo voltou atrás e não as realizará em novembro. Outrossim, as autoridades se negam a negociar com os manifestantes enquanto não abandonarem os protestos.

Fato que não poderia deixar de ser mencionado: a repressão do governo sob a mimetizada forma de combate ao terrorismo internamente. Argumento astuto e recorrente, na taxonomia século XXI, classificar alguém como “terrorista” impele imediatamente a legitimação de qualquer medida para detê-lo. Curiosamente, o terrorismo chegou primeiro à Tailândia e não aos Estados Unidos, depois das ameaças da Al-Qaeda. Assim, facilmente o premiê pôde considerar o avanço militar como a única maneira de salvaguardar a paz, ou o exército decretar o toque de recolher e confinar os manifestantes numa área de 3 km², no centro comercial de Bancoc, há cinco semanas. Acredita-se que o movimento chegou a contar com 10.000 pessoas, o que daria 0,3 m² para cada um neste acampamento. O gêmeo univitelino desta situação seria encontrado no cinema, com o filme “Distrito 9”.

Não obstante, é preciso também enumerar os erros de cálculo dos camisas vermelhas. O movimento não foi congênito aos anseios da sociedade. Algumas de suas ações acabaram por distanciá-lo ainda mais da população, como a morte de civis e uma invasão a um hospital, amplamente criticada e que gerou um pedido de desculpas por parte das lideranças. Ademais, o chamado de resistência conduz os manifestantes remanescentes à sobrevivência em condições subumanas. Todo e qualquer resquício de heroísmo agora está congelado!

Parece ser iminente a vitória do governo. Uma vitória absolutamente sem glória, na medida em que qualquer descuido poderia conduzir ao suicídio coletivo da nação. O museu tailandês se converteria num sepulcro. Já se chegou a mais de 60 mortos – metade dos quais nos último cinco dias – e a pelo menos 1.650 feridos. Resta a esperança de que a estabilidade política do passado ponha fim na narrativa ingloriosa do presente. E que esta se torne um artefato a ser arquivado em algum espaço de 0,3 m² do museu tailandês, sem pompa nem vintém.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos


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