Não violentem as brasileiras mulheres de Atenas

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As mulheres de Atenas são exemplos. Vivem, sofrem e despem-se para os seus maridos. Geram seus filhos, temem e secam por eles, orgulho e raça de Atenas. E as mulheres de cá, brasileiras, da canção de Chico Buarque, também são de Atenas. De uma Atenas que os milênios não afastaram da memória, em seus sutis devaneios democráticos. Democracia, sem igualdade de gênero, não é uma democracia plena. É impossível ser igual enquanto a violência persistir, em todas as suas manifestações (estupro, discriminação, etc.).

São elas que, quando amadas, perfumam-se e arrumam-se, e que, quando fustigadas, ajoelham-se, pedem e imploram mais duras penas. Recente pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam dados da sociedade ateniense do Brasil: 26% dos entrevistados concordam que uma mulher agredida continua com o parceiro porque gosta de apanhar; 63% concordam que casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família; 33,9% concordam ser compreensível que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher. Pobres brasileiras mulheres de Atenas!

São elas que esperam seus maridos voltarem aos lares, sedentos, para arrancar delas, violentos, carícias plenas, obscenas. Ou esperam por eles, bêbados, para acariciá-los no fim da noite. Segundo a pesquisa, 27,2% dos entrevistados concordam que a mulher deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade. Pior quando as carícias são arrancadas à força por estranhos: 65,1% concordam que mulheres vestidas com roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, e 58,5% acreditam que haveria menos estupro se as mulheres soubessem como se comportar. De vítima, a ateniense mulher brasileira torna-se incitadora; alguns até dirão agressora. A sociedade, coitada, torna-se tão antiga quanto à própria História.

Muda-se a paisagem, permanece o retrato de uma era remota que insiste em não passar, em descompasso com o que ocorre em outros cantos do mundo.

A mulher brasileira é muito mais do que forma. É conteúdo. É mais do que beleza. É ternura. É um samba que ao mesmo tempo é poesia. Poesia que oscila entre a epopeia e o soneto. Uma luta diária pelo pão ou pelo reconhecimento, misturada com a veneração masculina, umas ofensivas, outras não; umas carnais, outras românticas.

É a mesma mulher, o gênero, que acompanhou os soldados nos campos de batalha da maior guerra que este país travou. Aquela que pegou em armas e pela pátria lutou quando os homens caíram. A outra que gritou pela liberdade, pela democracia, pelos seus direitos… E tantas e tantas que coloriram a História do Brasil. Inabaláveis, como o destino; intensas, como o amor. Agora, sujeitas à condenação pelo que vestem, pelas covardes veleidades masculinas e pela sociedade que confiou o esquecimento ao tempo. E, lamentavelmente, condenadas pelo que são: mulheres, afinal.

No mínimo, é contraditória, por exemplo, uma propaganda incentivando o “xaveco” no metrô lotado e a inserção da violência contra a mulher como foco social no âmbito do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), lançado em 2007. Antes de qualquer lei ou atitude governamental, independente da esfera, é preciso uma atitude individual, uma mudança de mentalidade na própria sociedade.

A pesquisa vem em boa hora. Como dizem as vozes nas redes sociais, “ninguém merece ser estuprada”. A violência contra a mulher, em todas as suas formas, sem exceção, é imperativo de uma razão inaudita praticada por idiotas que, à Nelson Rodrigues, perderam a modéstia. Deixem que as mulheres, orgulho e raça do Brasil, vivam no Brasil do século XXI. Atenas passou. Deveria a desigualdade de gêneros também passar.


Categorias: Brasil, Direitos Humanos


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