Não vê, não ouve e não se pronuncia

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[Essa semana não teremos podcast]

Essa semana o Brasil foi recebido com críticas em Genebra, em ocasião da reunião do Conselho de Direitos Humano da ONU.

O motivo? Quem leu o post do Giovanni (logo abaixo deste) deve ter uma noção. Não se trata especificamente do Haiti, mas do rumo que nosso governo toma quando o assunto é relacionado à alguma denúncia de violação dos Direitos Humanos.

Alguns exemplos vêm do medo de se perder aliados, como no caso do Sudão. O presidente daquele país está com o mandato de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional e há denúncias graves de violações dos Direitos Humanos por lá. O Brasil? Não faz nada. Não quer perder um importante aliado na África que tem algo de comércio conosco. Não condena, não ajuda, enfim. Prefere seguir o tal do princípio da não interferência…

O xadrez da política explica outros, como o caso do senador Cristovam Buarque e as eleições da UNESCO (não entendeu? Clique aqui).

Outras vezes, a simples retórica sul-sul já ajuda a entender alguma coisa, como no caso do Sri Lanka, quando com o voto do Brasil o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que não condenou de forma clara o governo do Sri Lanka pelo tal do ‘banho de sangue’ contra os Tigres Tâmeres aleando a tal da não ingerência.

Isso sem falar no apoio dado aos nossos vizinhos quando tomam alguma atitude ‘questionável’.

Tudo bem. É uma conduta que o país decidiu adotar e não há nada de errado nisso tudo, de verdade. O problema é que o Brasil não é um país hoje com significância reduzida no cenário internacional. Tudo bem de novo. Há países com relativa importância, como a Suíça, que preferem se manter neutros sobre quase tudo. O problema de novo é que o Brasil acha que tem o direito de ser gente grande, como diz o Giovanni. Quer assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, quer ser BRIC, quer sair primeiro da crise, enfim…

Como um país que não toma atitudes sobre quase nada pode querer ter poder de veto no mais importante órgão das Nações Unidas? Como o Brasil quer ser respeitado se quando o presidente de um parceiro insignificante mata milhares de pessoas o Itamaraty não faz outra coisa se não soltar uma nota em papel timbrado com alguma declaração vazia?

Estar no Conselho de Segurança da ONU como membro permanente não tem outra função que não a simbólica. O órgão não é respeitado nem pelos Estados Unidos nem uma Coréia do Norte qualquer. As operações de paz são mais criticadas que o Hugo Chávez em véspera de referendo.

No entanto, é justamente o valor simbólico que importa. Estar lá é a prova de que o país faz diferença no jogo de poder mundial, ou na estrutura do poder, como diriam os neo-realistas. É ser gente grande. A configuração do Conselho hoje revela nada mais nada menos do que a distribuição do poder no mundo após a segunda guerra mundial, o que não é pouca coisa. E é justamente por esse status todo que quem está lá não quer abrir a porta pros demais.

Pois é. Os macaquinhos que não vêem, não ouvem e não falam podem ser até bonitinhos pra ficar em cima da mesa, mas não pra ficar em cima de uma cadeira permanente do Conselho de Segurança da ONU.


Categorias: Assistência Humanitária, Brasil, Direitos Humanos


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