Nada vem do Nada

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Em tentativa de compreender fenômenos como a vida e a morte muitos filósofos gregos e romanos buscaram entender a natureza da formação da matéria e de sua destruição. A célebre frase do filósofo latino Lucrécio – “nada vem do nada” – traz à tona essa busca, já que infere que nada se origina do nada, nada é concebido ou criado do nada. E o mais interessante é que filosofias como essa transcenderam sua época e afetaram a compreensão das ciências naturais nos últimos séculos. E poderíamos dizer ainda, que essa transcendência chega até o campo das Relações Internacionais e garante algumas explicações mais plausíveis para determinados eventos.


Agora de volta aos tempos atuais, não é novidade para ninguém que a aproximação do governo Chávez do governo russo Rússia tem causado um bafafá internacional, iniciado já há alguns anos. Os acordos militares entre os dois países sugeriram a muitos analistas o entendimento de uma nova Guerra Fria ou de uma busca de Chávez de se armar até os dentes, já que desde de 2006 que Chávez vem renovando seu arsenal materiais russos.


O mais recente episódio dessa história foi o encontro de Putin e Chávez na Venezuela na última sexta-feira. Dentre os acordos firmados entre os dois países, o bilionário acordo que criou empresa binacional para exploração petrolífera conjunta na faixa do rio Orinoco é o principal destaque. Ainda a Rússia prometeu ajudar a Venezuela no desenvolvimento de uma Usina Nuclear e firmou um acordo de intenções para a cooperação no campo aeroespacial.


A maior crítica a esse encontro proveio do nosso Tio Sam, quando o porta voz do Departamento de Estado estadunidense, P. J. Crowley, declarou que Chávez deveria se preocupar mais com os problemas “terrestres” do que com essas questões “extraterrestres” se referindo ao possível programa aeroespacial e à grave crise energética que o país tem vivido (tão grave que Chávez recentemente Chávez declarou feriados nacionais adicionais para economizar energia nos escritórios).


Mas agora pensemos. O quão extraterrestre são esses projetos de cooperação com a Rússia? Atualmente Chávez tem colhido os frutos de seu discurso explosivo e há muito não pode mais comprar aviões ou equipamentos que contenham peças produzidas nos Estados Unidos já que o Tio Sam se comprometeu a não fornecer mais peças à Venezuela. Destarte a Rússia sobra como outra opção de parceria estratégica. Como defendem alguns autores no campo das Relações Internacionais, a cooperação em determinado campo acaba por “transbordar” (do inglês “spillover”) para outros campos com o passar do tempo, intensificando a integração. E já que a Rússia era importante parceira no campo militar uma parceria no campo energético é facilitada e apenas estreita os laços entre esses países.


E o mais interessante disso tudo é que indiretamente são observados os esforços de Chávez (de maneira exótica, considerando que ele mesmo se sinucou dessa forma) de superar a crise energética que o país vive. Uma nova usina geradora de energia nuclear e maior exploração petrolífera estariam dentre o rol de medidas cabíveis para tirar o país da escuridão. Assim, o entendimento de Lucrécio sobre a natureza da matéria nas ciências naturais, se encaixa perfeitamente para o entendimento da dada questão. Nada vem do nada, e muito menos essa busca por cooperação energética e em defesa cm a Rússia por parte da Venezuela. A presente questão é fruto de um desenrolar de eventos mais profundo do que um primeiro olhar pode garantir. Agora só espera-se que Chávez não se complique de novo com esses explosivos discursos e que essas possíveis soluções não tomem novos rumos. . .


Categorias: Política e Política Externa


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