Nada de novo no front

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Nada de novo no front é um impressionante livro de Remarque, riquíssimo nos relatos sobre a Primeira Grande Guerra, e que inspirou a canção homônima da banda Inocentes. No front do Oriente Médio, em particular na Síria, não há nada de novo. Ao menos, por enquanto…

Novamente, vemos a combinação tão característica da região desde o início deste ano. Promessas de reformas políticas e socioeconômicas não cumpridas, as pessoas saindo às ruas para protestar e o governo reagindo. Reação que, como na Líbia, assumiu a forma de uma intensa repressão. Se Muamar Kadafi utilizou a força aérea líbia para conter os protestantes, Bashar al Assad soltou os tanques. Só neste fim de semana, 120 pessoas foram mortas, mais de um terço das 300 que morreram desde o início das manifestações. Agora, toda sexta, dia de descanso para os sírios, tornou-se sinônimo de dia de protestos, após o término das orações.

Segundo um breve relato, os protestos se intensificam porque alguém que elas conheciam morreu, sejam nos próprios protestos, na saída das mesquitas ou até nos funerais (outros relatos podem ser vistos aqui). A princípio, não se tratava de manifestações contra a deposição de Assad, mas agora as são. A imagem do ditador aos moldes ocidentais, de natureza reformista, foi por água abaixo. Um governo secular, e não religioso ou sectário, ao contrário do que muitos pensam, como afirma Gustavo Chacra em seu blog (muito interessante), pode desmoronar por si mesmo ou por alguma intervenção estrangeira. (Acompanhem esta análise)

A situação está cada vez mais complicada na Síria. É possível que se tenha chegado ao ponto em que só é possível conter os protestos ou com a queda do atual governo – e não mais por meio de reformas –, ou com uma brutal repressão. A primeira opção parece descartável, enquanto o regime é também apoiado pelo exército. A segunda, problemática. E muito problemática. Bashar al Assad pode seguir o exemplo do seu pai, Hafez Assad, que, em 1982, massacrou cerca de 20 mil pessoas para extinguir um levante de radicais islâmicos no país. É aí que entra a tal da “intervenção humanitária preventiva”, um conceito norte-americano, cunhado para justificar a intervenção na Líbia, que até agora ninguém sabe explicar.

Outra vez, as principais potências ocidentais, no pretenso altruísmo de evitar uma grande matança humana, são chamadas a intervir. A França parece tomar a iniciativa de novo, enquanto os Estados Unidos até cogitam agir sem o aval da ONU. Inevitavelmente, surgem perguntas: qual a legitimidade para essas intervenções? O que diz a ONU? Será mesmo que essa é a principal solução para o que ocorre no Oriente Médio? O que vem depois das intervenções?

Um processo cíclico em que uns se rebelam, outros reprimem e outros ainda intervêm, está se formando, no entanto, sem chegar à solução alguma. Todos se embolam e a única variável é quem: pessoas, países, organizações…

[Segue a indicação de dois artigos interessantes. Um sobre a história síria que saiu na Foreign Policy. O outro sobre estas manifestações no mundo árabe, que o autor classificou como revoluções pós-islâmicas, e saiu na Foreign Affairs.]


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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