Nada de novo na Síria

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Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


3 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Colega anônimo, na verdade é uma questão de saber quem NÃO está armando os opositores. Tanto que num discurso recente a Hillary Clinton reclamava justamente de que a falta de coesão do movimento é um dos fatores que impede o envio de "recursos", por assim dizer. Que países ocidentais enviam suprimentos para os opositores, não resta a menor dúvida, mas é feito por baixo dos panos (e para os dois lados - no caso, destaquei uma confirmação oficial). Vale lembrar que, de todo modo, essa guerra civil começou com a repressão violenta inicial do governo aos protestos, que acabou escalonando, então existe uma dubiedade moral no fornecimento de armas à Síria, que não parece incomodar China e Rússia (e se encaixa na posição dos países no CS). Isso vale pro outro lado, sem dúvida.

Anonymous
Anonymous

E quem estão municiando os tais rebeldes opositores, e a qual pretexto? O articulista omite tendenciosamente essas considerações...

Anonymous
Anonymous

E os "protestos" que geraram a "repressão violenta inicial do governo" começaram e foram mobilizados com qual patrocínio? Seriam rebeldes sem causa? É muita ingenuidade em assunto que não permite tal condição. Rebeldes são movimentos patrocinados por potências mundial, no caso EUA, para enfraquecer ditadores não alinhados com seus interesses econômicos, leia-se busca de fontes energéticas...