Na terra do nunca

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Nesta semana, a mídia internacional atribuiu um sufixo ao Ira, o sufixo “que”. Da terra da rebeldia aos desertos da incerteza. Estão abandonando o Iraque. Ou mehor, estão deixando-o à sua própria sorte. Nada de tão estranho ou que contraponha a política externa norte-americana; primeiro, provoca uma enorme bagunça num determinado país, depois, deixa-o se reconstruir por si mesmo ou chamam organizações internacionais para fazê-lo. Só não vale ficar prendendo meros praticantes da modalidade de arremesso de sapatos…


Após uma forjada guerra de seis anos, o suposto primeiro passo para o término da invasão dos Estados Unidos ao Iraque está se concretizando. Na última terça-feira, dia 30 de junho, as tropas norte-americnas deixaram de patrulhar as cidades iraquianas e apenas entrarão em áreas urbanas se forem solicitadas por forças de segurança locais (ou se descobrirem petróleo, não é?). A brincadeira de Velho Oeste está acabando: nada de “mocinhos” correndo atrás de “bandidos” em território alheio. Só que essa brincadeira não foi tão divertida, pois envolveu diferentes identidades e práticas culturais diversas. Enquanto o reino de Saddam prevalecia, a minoria sunita comandava a maioria xiita, e os curdos subsistiam. E agora, quem controla quem?

Além do mais, redutos do terrorismo internacional se espalharam pelo país. Dizem que a Al Qaeda está se fortalecendo e se preparando para voltar com mais vigor. Isto deveria estremecer os EUA, afinal, o terrorismo se apresenta como o seu maior inimigo e, ao mesmo tempo, um inimigo sem face. No Velho Oeste, sabia-se em quem se atirava. Agora, quem é o alvo? Desistiu de procurá-lo no Iraque? Ou havia interesses ocultos? No Vietnã, falava-se em nome da honra, seja para ficar, seja para partir, hoje a honra tem um preço e se compra com petróleo.

Mas e o Iraque melhorou? Ora, em certos aspectos é bem verdade que as parcas melhorias podem servir de consolo: eleições livres, maior estabilidade política, funcionamento dos serviços públicos, dentre outras. Agora considerar que o país está mais seguro é bastante audacioso. Fallujah é o maior exemplo disso. A cidade conseguiu conter os insurgentes da Al Qaeda no ano passado e estava dando início a um projeto de reconstrução. Porém, desde que uma onda de ataques acometeu o país no começo deste ano, a imagem de Fallujah ficou maculada; de exemplo, ela se converteu em ameaça. Os atores novamente estão contracenando no palco onde se travaram as únicas batalhas reais da “Guerra do Iraque Contemporânea”.

Vejamos outros dois casos curiosos para se ter uma idéia mais ampla da segurança no Iraque. Há pouco mais de uma semana, o primeiro-ministro iraquiano, Nuri el Maliki, declarou que a data de 30 de junho representaria um marco para a união nacional e, simultaneamente, um grande desafio; o país retomaria a sua soberania. Pouco depois de ter pronunciado essas palavras, ocorreu um atentado suicida em Kirkuk, que matou 72 pessoas. O outro caso: o general Tariq al-Youssef, comandante da polícia da província de Anbar, relatou que, em uma de suas patrulhas, viu uma mulher idosa com uma túnica grande se aproximar dele e pensou que ela fosse uma suicida. No entanto, a inocente mulher havia se aproximado dele para mostra que estava com a mão cheia de doces, um velho costume iraquiano. Em suma, estão todos muito amedrontados, não seguros.

Depois de seis anos de uma invasão frustrada e de promessas não cumpridas, o Iraque está solitário nos desertos da insegurança. Um país não pode depender eternamente de outro, senão não é soberano; da mesma forma, um país não deve invadir outro sob pretextos alucinantes. Verdade seja dita, a única maneira de não se chegar a esse fim era não ter começado. Agora, não importa se as tropas norte-americanas ficarão ou deixarão o país, o Iraque jamais realizará a promessa de glória da antiga civilização mesopotâmica. Eduardo Galeano já nos alertou que a humanidade não nasceu no Texas e que tampouco a escrita fora criada nos EUA.

Em um livro intitulado “101 dias em Bagdá”, a jornalista Asne Seierstad relata as suas experiências no Iraque no antes, durante e após o 19 de março de 2003, data de início da invasão. Numa dessas experiências, ela conta que entrevistou um morador da capital iraquiana e que se surpreendeu com o que ele lhe disse: “Como teria reagido se as forças iraquianas atacassem o seu país (a Noruega), se tentássemos assassinar o seu presidente para impor os nossos próprios líderes e nosso próprio sistema política, se tivéssemos cortado a luz e a água e assassinado os seus vizinhos?” Como reagiriam os EUA? O Iraque não reagiu e se converteu na terra do nunca. Nunca a História esqueceu tanto de uma de suas maiores lembranças…



Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Obrigado pelo comentário, Leo.Meu propósito no artigo foi questionar a invasão norte-americana ao Iraque. O país se desestabilizou por completo, isto é, se é que um dia teve estabilidade. Mas o fato agora é que o caos impera em todo solo iraquiano. É reduto terrorista pra um lado, curdos, sunitas e xiitas misturados, insurgentes e problemas que não param. É bem verdade que os iraquianos celebram algumas pequenas conquistas. Só que, se antes, as pessoas tinham medo da repressão, agora é a confusão que as amedontram.Sem dúvidas, a insurgência não cessou. Um dos motivos pelos quais questiono não apenas a retirada das tropas norte-americanas, mas o próprio fato de terem entrado. Elas foram infelizes no cumprimento de seu objetivo inicial. É bem estranho que aqueles que um dia escolheram intervir porque existiam armas de destruição em massa, consideraram que o motivo foi uma grande falha do serviço de inteligência. Daí, precisava-se de outro motivo, qual seja, a justificava de que ter um líder insano como Saddam seria o suficiente para que um dia o país viesse a desenvolver tais armas. Mais do que isso, era preciso agir em nome da democracia e dos direitos humanos. Seis anos depois, o que temos? Democracia e direitos humanos? Eu acho que não.Obrigado pelos comentários, Leo. É importante que sempre mantenhamos o diálogo e o senso crítico neste espaço.Um abraço

Leo.
Leo.

Meio sem cabimento a comparação do iraquiano; mas a resposta seria dando uma sova neles, a do Saddam só demorou demais. O iraque não reagiu pq não tinha como. E se está tendo atentado suicida no país e confrontos isso quer dizer resistencia ou reação, não?Quer doa ou não um governo de um Saddam, um Talebam a menos no mundo é um bem, mesmo que feito do modo, no momento ou pelos motivos errados.