Na dança da geopolítica mundial

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A reflexão final com o que o Álvaro encerra o post de ontem pode abrir o de hoje: a tolerância entre os povos na questão nuclear. O Irã deseja retomar as negociações sobre o seu programa nuclear com o grupo 5+1, composto pelos membros permanentes do Conselho de Segurança mais a Alemanha, e aproveitar a oportunidade para envolver a Turquia, país que sediará reuniões nos próximos dias 21 e 22. A Índia, por sua vez, afirmou que aumentará a matriz energética nuclear de 2,5% para 25% nos próximos anos, e é o segundo país que recebe investimentos estrangeiros no setor, perdendo para China. As mesmas potências que condenam de um lado, apóiam de outro. Isso nos conduz a um olhar mais dilatado.

Não é novidade para ninguém que a geopolítica mundial está mudando. O declínio norte-americano – a priori, econômico – é capa da edição da Foreign Policy da primeira edição deste ano. O tema também ocupou grande espaço no noticiário, concomitante a ascensão de novas potências. Por certo, os compassos geopolíticos desenham novos círculos de influência já não tão globais, mas regionais, cujo cálculo da atuação deve levar em conta a geometria de outros poderes.

No caso iraniano, faz-se apologia à vitória das potências ocidentais e ao êxito esperado com a adoção de sanções. A solução negociada para com o Irã e o seu direito ao desenvolvimento de um programa nuclear pacífico pertencem ao ataúde da memória. O emprego da força, na vertente da pressão econômica, acrescenta outro fracasso para a coleção de insucessos de gerir uma nova ordem internacional à luz de uma estratégica de segurança internacional EUA-OTAN do pós-Segunda Guerra.

Na Índia, por sua vez, o programa nuclear não apenas é apoiado, como fomentado. Nas últimas visitas dos presidentes de Estados Unidos, França e Rússia, foram firmados importantes acordos de cooperação na área. Mas, afinal, por que essa diferença de tratamento quando Índia e Irã se parecem tanto? Os dois não ratificaram o TNP; a primeira tem arsenal nuclear, inclusive já testado, o segundo pretende desenvolvê-lo (embora não assuma e se já não tem); ambos têm fortes inimizades, Paquistão e Israel, respectivamente, e ambição por aumentar a influência regional.

Só que a Índia é bem vista pela comunidade internacional, o Irã, não. Em cenário prospectivo, a Índia pode se consolidar como potência, abandonando o adjetivo “emergente”. O crescimento econômico impressiona – no período de crise, a economia cresceu 6,7%, no ano passado, 8,5%, e a projeção é que cresça entre 9 e 10% este ano (aqui) –, mas as relações diplomáticas, sobretudo na vizinhança imediata, levantam desafios no horizonte político. Como lidar com a China em espaço de influência que também lhe é próprio? E as rivalidades com o Paquistão, que, por sinal, faz parte da estratégia ocidental de combate do terrorismo global? Como o Ocidente lidará com a Índia e o Paquistão simultaneamente? Do lado iraniano, mais marcado pelas polêmicas do que projeção concreta de poder, abre-se caminho para uma maior aproximação entre o país e a América Latina, bem como para a busca turca por influência no Oriente Médio.

Dos grandes assuntos globais, nascem oportunidades regionais. Nos vácuos de poder que se criam nessa geopolítica mundial em gestação e mutação, os países se articulam e se movimentam para encontrar o seu “novo” lugar, sem os encantos nacionalistas de outrora, mas de acordo com a realidade que se interpõe.


Categorias: Ásia e Oceania, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


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