Na contramão?

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Nos últimos anos, desde a crise de 2008 (que parece ter sido há uma eternidade mas ainda está repercutindo), quando se fala do noticiário europeu as notícias são quase sempre negativas, com as reclamações dos países que estão pagando pela incompetência dos devedores (leia-se, Alemanha) e lamúrias dos que precisam cumprir as regras do jogo, estão devendo até as calças e precisam praticar a austeridade. Nisso tudo, a União Europeia acaba vilanizada, seja por proporcionar a necessidade desse arrocho fiscal, seja por causar gastos aos bons pagadores para salvar outros países. A Inglaterra sorri de orelha a orelha por não ter caído nessa “armadilha” monetária. E na maioria das vezes vemos o risco é de países saírem da zona do Euro… mas eis que um país em crise está fazendo exatamente o oposto, e aqui entra a discussão sobre a Ucrânia.

Já falamos algumas vezes do país eslavo por aqui. A ex-presidente Yulia Timoschenko foi a última grande manchete, quando acusada de corrupção foi presa e, suspeita-se, vítima de tortura. A prisão, considerada arbitrária por muitos observadores internacionais, mostra o grau de turbulência por que passa o celeiro da Europa, com a oposição e o presidente Viktor Ianukovich trocando farpas das mais afiadas. Ianukovich (outrora aliado de Timoschenko) é pró-Rússia, e em tempos de crise (e a condição que a ex-presidente fosse libertada), mandou a UE catar coquinho e optou por buscar arrego com Moscou, anulando um acordo de adesão que gerou protestos e revolta no país, resultando em violenta repressão policial e ainda mais protestos em consequência (conhecemos bem essa equação aqui no Brasil lá pelos idos de junho). 

A relação da Ucrânia com a Rússia é visceral. Os países mantêm laços econômicos estreitos, na verdade, a própria origem do Império Russo (séculos atrás) se deu em território ucraniano, para depois começar a se expandir setentrionalmente. Foi apenas com a desintegração da URSS que o país se “desligou” formalmente do gigante euroasiático, e isso foi uma das maiores perdas russas com o fim de seu império socialista (indo de aspectos econômicos, como os recursos agropecuários e minerais, até mesmo ao futebol, já que a Ucrânia era a fonte de uma estirpe de jogadores de alto nível). A relação é, obviamente, controversa – por exemplo, existe uma lei de 2012 sobre o ensino da língua russa que causa discussões exaltadas (e pancadaria) até hoje no país. 

Essa sombra da “dominação” russa é o que faz a população ucraniana se revoltar. Não bastasse a dependência econômica, agora estaria voltando a acontecer ingerência política. Como vemos diariamente nos jornais, a entrada na UE certamente não seria pela estabilidade do bloco (apesar de possivelmente trazer grandes benefícios ao país). A revolta com o cancelamento é muito mais uma mensagem de reprovação ao alinhamento com Moscou, que parece interessar apenas a membros do governo de Ianukovich e à própria Rússia, enquanto a população fica à mercê dessa crise econômica e política. A prisão de Timoschenko já era um sinal de que as coisas já não iam bem no país, e esse ambiente de revolta e descontentamento pode ter um desfecho ainda mais impactante que os protestos do meio do ano por aqui.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


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