Morte e vida Palestina

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A imortal obra de João Cabral de Melo Neto, “Morte e vida Severina”, narra uma história comum dos retirantes nordestinos brasileiros, marcada pela infusão de duas grandezas inversamente proporcionais: mais morte, menos vida. Morte sob as insígnias do medo, do anonimato e da miséria. Vida mantida acesa pelo parco brilho da esperança. Curiosamente, o livro, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1966, perpassa pela intensificação do conflito árabe-israelense (anexação do Canal de Suez e ocupação das colinas de Golan), momento no qual era inútil lutar contra a “espingarda” de Israel, pois mais campo tinha para soltar e mais filhas-bala onde fazer voar, numa paráfrase dos versos de Melo Neto.

Curiosidade maior é um Severino romper o ciclo vicioso que a vida impunha e ansiar pelo rompimento do ciclo vicioso que a história impõe a Israel e Palestina. Do sertão nordestino aos desertos do Oriente Médio, o presidente Lula luta pela inversão da fórmula mais morte, menos vida. Podemos agora relançar as discussões que já foram suscitadas neste blog, num post do Alcir (aqui), acerca do papel brasileiro nas negociações de paz no Oriente Médio. Estaria a nossa diplomacia contribuindo decisivamente para a cessação do conflito Israel-Palestina?

Após o malogro da tentativa norte-americana para a condução de negociações indiretas pela paz, expressada com muito descontentamento pelo vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, agora é a vez do Brasil. Se o maior aliado de Israel falhou, por que acreditar que nós teremos sucesso? Ora, que ninguém se engane: não teremos sucesso. Ao menos, não a curto prazo. Isso representaria um erro estratégico para a política externa? A resposta é não. Atuar pela paz do Oriente Médio é confirmar o acumulado histórico da diplomacia brasileira como um meio eficaz para a realização dos interesses e objetivos da política externa brasileira.

Podemos prestar contribuições decisivas para o processo de paz no Oriente Médio na medida em que nossa riqueza conceitual na área diplomática sirva de exemplo para a inteligência política dos líderes israelenses e palestinos. A vocação pacífica, o multilateralismo, a ação externa cooperativa e não-confrontacionista – conceitos que para Amado Cervo criam um paradigma brasileiro nas relações internacionais – culminaram no pioneirismo do Brasil na luta por uma América do Sul livre de armas nucleares e pela resolução pacífica de controvérsias. Mais do que o presidente Lula, é o Brasil que traz o vírus da paz dentro de si (aqui e aqui).

É bem verdade que o encontro entre o presidente Lula e o presidente de Israel, Shimon Peres, bem como os encontros com Benyamin Netanyahu, premiê israelense, e Tizipi Livni, líder da oposição no país, foram marcados por declarações fortes e divergentes. Ademais, mesmo sendo “bombardeado” no Parlamento (Knesset), Lula foi aplaudido de pé. O Brasil quer o fim dos assentamentos israelenses, a criação de um Estado Palestino e a negociação, não a adoção de sanções, com o Irã. Israel, por sua vez, é totalmente contrária a essa posição (confiram as reportagens: aqui, aqui e aqui). Isto não significa que o Brasil está peitando e tampouco se afastando de Israel – ambos detêm acordos comerciais -, mas expressando o que o chanceler Celso Amorim chamou de “franca opiniões entre amigos”. Nota-se, por exemplo, o reconhecimento israelense da importância brasileira nas negociações pela paz, assim como os dirigentes palestinos o fazem. Aliás, o próprio premiê palestino, Salam Fayad, afirmou que o prestígio universal do Brasil lhe assegura a condição de mediador.

Peres chegou a afirmar que falta pouco para a paz entre israelenses e palestinos. Se faltasse, Israel ouviria os apelos e condenações da comunidade internacional. Lula considerou que o procedimento não é tão simples e deveria envolver mais países na negociação. Outra postura que chama atenção da política externa do atual governo, no sentido de dar mais voz aos países emergentes e produzir maior simetria nas relações internacionais.

Deste ponto de vista, poderíamos concluir que o Brasil não deve deixar de se envolver nas negociações de paz no Oriente Médio. É de interesse do país, de Israel, da Palestina e de toda a comunidade internacional o término do conflito na região. E é igualmente necessário vencer a inércia, sem delegá-la aos encargos do tempo. Que o lirismo de João Cabral de Melo Neto seja a fonte de inspiração para pôr termo a esta morte em vida, vida em morte Palestina!


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


3 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Gostaria de agradecer ao elogio da Christiane e ampliar a discussão levantada pelo comentário do Provos Brasil.De fato, o mais coerente para a concretização da paz entre Israel e Palestina seria pelo menos a regressão das fronteiras israelenses para o seu estado original de 1948 e a criação de um Estado Palestino. Todavia, nem sempre as obviedades se enxergam e o que parece fácil torna-se cada vez mais inalcançável. O curso da história acabou desfavorecendo e frustrando todas as tentativas de pôr termo ao conflito. Instaura-se de quando vez uma paz negativa no curto interlúdio entre intifadas, invasões, protestos, etc., deixando pouca margem para a paz positiva, construída e duradoura entre os povos. Paz essa que parece figurar na agenda política de Obama e que também foi incorporada por Lula, no intento de aumentar o protagonismo brasileiro nas relações internacionais.Por sinal, acho até que vou no sentido contrário da maioria das análises que tenho lido sobre a atuação do Brasil no Oriente Médio, as quais a consideram desnecessária. Sou simpático a esta atuação, não sou totalmente otimista com relação à cessação do conflito, mas bastante otimista com os ganhos que acarreta para a política externa brasileira. Ademais, não é novidade o Brasil se posicionar frente ao tema: o próprio Geisel se manifestou favorável à criação do Estado israelense, mas contrário à expansão do mesmo. Espero ter contribuído no debate.

Christiane Matos
Christiane Matos

Muito interessante a relação que você fez no texto com a obra "Morte e vida Severina", Giovanni. João Cabral de Melo Neto, o poeta da razão, transformou em literatura o conhecimento que o levou à diplomacia. Torço para que você trilhe o mesmo caminho!

Provos Brasil
Provos Brasil

A paz só reinará se no mínimo as fronteiras voltarem para 1948! Algo impossível aos invasores israelenses! Por uma Palestina Livre! Provos Brasil