Morte ao Muro de Berlim, não à Guerra Fria

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Certamente, todos os internacionalistas de plantão são devotos deste acontecimento memorável: a queda do Muro de Berlim. Ora, o evento que simbolizou a derrocada da Guerra Fria ensejou inúmeros programas de investigação teórica e infindáveis debates a despeito do mundo superveniente ao conflito bipolar na disciplina de Relações Internacionais, ontem completou duas décadas. Concomitantemente, o povo alemão pouco celebra a queda do muro, pois a dor da lembrança oblitera o próprio simbolismo do acontecimento.

Os muros não são novidades em toda a história da humanidade e se podemos atribuir-lhes uma finalidade, certamente seria a de delimitar. Delimitar o quê, mais precisamente? Talvez delimitar aquilo que pertence ao “nós” em oposição àquilo que cabe aos “outros”. Cidades, castelos, casas e até países. Sim, países. Construções fortificadas e excludentes e, simultaneamente, provedoras de segurança. De sociedades totêmicas, sob o invólucro de seus muros, a sociedades em redes, interconectadas e fragmentadas nas quais se urgiu o estabelecimento de muros. Muros de vergonha, de preconceito, de xenofobia, de hipocrisia, de intolerância, de frustrações… De profunda divisão entre a simbiose “nós”/”outros”.

Em pleno século XX, dividiu-se uma cidade, um país, sob a égide do embate entre duas ideologias mutuamente excludentes. Capitalismo e socialismo se encontravam fisicamente apenas num único ponto: Muro de Berlim. Eles o criaram. Abstratamente, ambos desenharam a “Cortina de Ferro”. Um leste socialista contra um oeste capitalista, uma acumulação da riqueza contra uma socialização da pobreza, um Yin Yang no mundo contemporâneo, reinventado por políticos, não por religiosos. E uma sociedade que viveu os tristes versos do Cancioneiro de Pessoa, “Não sei, mas meu ser/Tornou-se-me estranho,/E eu sonho sem ver/Os sonhos que tenho.” Pobre Alemanha!

Intrépidos e algozes são os ventos que trazem o futuro sem deixar para trás a sombra do passado. Em Berlim, caiu a linha divisória da dualidade ideológica e o marco da Guerra Fria, contudo, não se sepultou em definitivo o caráter do conflito bipolar. A Guerra Fria ainda corre na veia dos vencedores e vencidos. Por um lado, quem perdeu afirma que não perdeu, como dito por Gorbachev em recente entrevista (veja aqui). Por outro, quem ganhou discute o sentido da vitória: o fim da história de Fukuyama, o sistema DOS internacional de Friedman? Ou o desgaste de uma hegemonia norte-americana? Segue a Guerra Fria como uma figura mítica no imaginário das relações internacionais contemporâneas, cujos desdobramentos perduram com o seu fim: o comunismo não morreu, a dualidade conflituosa não se extirpou e os muros não caíram – inclusive, novos vieram.

Ainda há sete países comunistas pelo globo, governando 20% da população mundial. O conflito Leste-Oeste foi substituído pelos choques civilizacionais de Huntington, ou seja, pelo embate cultural entre o Ocidente e o Oriente. No Chipre, persiste um muro divisório, outro é paulatinamente levantado por Israel e outro ainda é cogitado nos Estados Unidos. O mundo ainda carrega uma indigesta herança da Guerra Fria. Ou talvez sempre tenha carregado a aversão pela diferença e a premência de combatê-la. Diz uma música dos Engenheiros do Hawaii, “Há um Muro de Berlim dentro de mim/Tudo se divide, todos se separam.” Divididos e separados, entoamos a canção.

É óbvio que não se trata da repetição do conflito bipolar, mas de determinadas nuanças que podem ser verificadas após o seu término. O simbolismo político, econômico, cultural, social e histórico que reveste a queda do Muro de Berlim é deveras impressionante, ao mesmo tempo em que não se pode deixar de relevar o Muro de Berlim que carregamos dentro de nós: nossas concepções, análises, comparações, etc. que nos remetem à era da bipolaridade. Este certame deve ser o que engendra a peculiar aura da Guerra Fria e a torna um Janus bifronte, o deus romano dos portais, entremeando o passado e o futuro.

O Muro de Berlim caiu, mas a Guerra Fria não morreu. Será mais uma lenda narrada nas epopéias acadêmicas e políticas vindouras.

(Acessem outras reportagens sobre a queda do Muro de Berlim aqui, aqui e aqui.)

(Vejam aqui também que curiosa matéria publicada no The New York Times no dia em que se comemorou 20 anos da queda do Muro de Berlim.)


Categorias: Política e Política Externa


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