Morre Sharon, vive o conflito Israel-Palestina

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Líderes mundiais deixam, inevitavelmente, um legado histórico que ultrapassa fronteiras e que revela sua influência em grandes traços do cenário político internacional à sua época. Com Ariel Sharon, contudo, a análise é bastante particular. Dependendo do interlocutor, sua memória é relembrada de formas absolutamente distintas. Visões opostas de uma liderança controversa que se despediu sem que o conflito na região tenha qualquer perspectiva de finalização.

Aos 85 anos, após oito em estado de coma vegetativo, o ex-primeiro-ministro de Israel faleceu ontem. Considerado um dos “pais fundadores” de Israel, Ariel Sharon é lembrado por sua carreira militar à qual se sucedeu uma ampla trajetória política no país.

Sua postura “linha dura” em defesa unilateral dos interesses de Israel certamente impacta na situação em que a região se encontra ainda nos dias de hoje. Destaca-se o fato de que Sharon ainda teve seu nome associado ao triste massacre de palestinos em campos de refugiados do Líbano (Sabra e Chatila) enquanto era ministro da Defesa, em 1982.

Após passagem por vários cargos e sob o slogan de “segurança e paz verdadeira”, foi eleito primeiro-ministro em 2001, sob levante palestino. Responsável pela construção do absurdo muro da Cisjordânia e tradicional promotor de assentamentos israelenses em territórios ocupados por palestinos, o fato de Sharon ter ordenado a retirada de assentamentos israelenses da Faixa de Gaza em 2005 revelou uma faceta mais centrista em relação ao seu passado de direita. Pouco depois, o derrame que o levou ao estado vegetativo em que se encontrava até o momento de sua morte impediu a história de vislumbrar se sua postura em relação ao reconhecimento dos palestinos enquanto um povo livre se concretizaria, diferente de sua usual linguagem da força.

Considerado “herói político” por israelenses e “criminoso e tirano” por palestinos, sua morte está sendo, ao mesmo tempo, lamentada e comemorada por muitos. Posições de enfrentamento que, desde a polêmica criação do Estado de Israel da qual ele mesmo participou, representam um dos maiores desafios político-militares nas relações internacionais.

Com claros interesses em jogo, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reforçou hoje o anúncio da construção de novos assentamentos israelenses em territórios palestinos, contradizendo as expectativas palestinas e internacionais, mesmo após a recente tentativa de retomada de negociações pela paz por parte de John Kerry, Secretário de Estado norte-americano. O conflito Israel-Palestina, infelizmente, tem perspectiva de vida longa…


Categorias: Conflitos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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