Meios, fins, crescimento e austeridade

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As vozes que têm ecoado na União Europeia nos últimos meses têm levado em conta dois elementos importantes da economia dos países. O crescimento e a austeridade. Ora, para alguns, esses são dois opostos e duas “alternativas” políticas. De um lado, investir mais nos países para tentar sair dessa zona de crescimento pífio; e de outro, cortar gastos para tentar estabilizar a economia. Até o início do mês passado a opção europeia já parecia traçada pelo FMI, Banco Central Europeu e o Fundo de Estabilidade Europeu, e a Alemanha (clique aqui, aqui e aqui, para diferentes visões sobre isso). Com os resultados não muito positivos nos últimos meses, as coisas parecem estar virando, e um debate tem vindo à tona.

Mas será que “crescimento” e “austeridade” são dois pólos ou duas opções políticas? 

Bom, não há economista ou estadista que não goste de crescimento. O político que for a frente da população e disser que defende a austeridade ao crescimento, provavelmente pode não sair de lá muito bem (clique aqui para uma cômica crônica portuguesa sobre isso). A questão é que austeridade não é um fim em si mesmo. É tida como uma forma possível de retomar esse crescimento e estabilidade do país. Não existe como oposição ao crescimento, mas como um meio para atingi-lo novamente. 

Já o “crescimento”, como se tem dito por aí, é um fim. O que os políticos defendem é uma forma oposta de abordar a crise, um meio diferente. No caso, com maior endividamento para o bloco e investimentos em setores-chave da economia. A ideia básica é fortalecer o Banco Europeu de Investimentos para tanto. No curto prazo, possibilitaria um crescimento muito maior e poderia gerar ferramentas para os países por si só saírem da crise, pela ampliação de empregos e investimento em setores como infra-estrutura e energias renováveis. Esse é um debate que o Brasil já está bastante acostumado. 

Durante a década de 1970, quando os preços do petróleo catapultaram, o governo enfrentou esse dilema. Investir em infra-estrutura e continuar a crescer ou ajustar-se a crise internacional. Escolheu a primeira, com benefícios para o país e grande ampliação da dívida externa. Claro que o contexto brasileiro da década de 1970 é muito diferente do momento que a Europa vive, mas há certo grau de semelhança no dilema de como sair da crise. 

A vitória de François Hollande nas eleições francesas é outro aspecto que traz força a uma busca de flexibilização do debate “austeridade-crescimento”. Hoje, não fosse o infortuito raio que atingiu seu avião, estaria conversando com a presidente alemã, Angela Merkel, sobre o futuro do plano de recuperação econômica europeia, em defesa de uma posição menos restritiva para as populações em crise. A incapacidade do governo grego de formar uma coalizão para governar (até já se considera a hipótese de sair da zona do euro) é outra manifestação das dificuldades políticas da opção defendida pela Alemanha. 

Esse debate nos é mostrado pela mídia de maneira mais complicada do que realmente é, crucificando uma opção, confundindo meios com fins e vice-versa. É preciso olhar um pouco mais a fundo para podermos avaliar as opções disponíveis. As próximas semanas ainda renderão muito pano pra manga. Que venham os próximos capítulos!

[Para mais sobre isso no blog, clique aqui e aqui


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