Mediação brasileira?

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O presidente do Irã, Senhor Mahmoud Ahmadinejad, manifestou o desejo de que o Brasil faça a mediação na crise nuclear que aumentou bastante em intensidade desde que o Irã anunciou que enriquecerá urânio a 20%.

Em primeiro lugar, pessoalmente, acredito que essa ‘proposta’ não vá pra frente, pelo menos não agora. Isso porque não foi sequer uma proposta. Foi algo dito em uma entrevista coletiva, nada oficial.

Além disso, a situação no Irã é bastante complexa, envolve negociações muito grandes com grandes potências. É pouco provável que um país sem histórico recente de mediações nesse nível, sem influência, negócios relevantes, identificação cultural ou qualquer outro laço forte na região simplesmente passe a desempenhar um papel tão importante numa situação tão delicada.

Essa declaração do presidente iraniano, no entanto, permite que tiremos duas conclusões opostas sobre a projeção internacional do Brasil.

Por um lado, mostra que nosso país deixou de ser um player secundário no cenário internacional. Ser lembrado e considerado por uma das partes de um conflito tão sério, delicado e perigoso pode ser um indicativo de que a projeção intencionada pelo governo nos últimos 7 anos deu certo.

No entanto, temos de considerar alguns pontos importantes. O primeiro é que o Irã não tem muitos parceiros, como o Brasil, que abertamente afirmam que o país tem o direito de enriquecer urânio. E ainda mais aqueles que permanecem firmes nesta posição mesmo quando o Irã diz que vai enriquecer o mineral a 20%, muito acima do necessário para produzir energia.

Será que o Irã diz querer o Brasil porque acredita no potencial de resolução de conflitos do nosso governo ou porque quer uma parte que está, digamos, do seu lado? E um parceiro assim é coisa rara pro Irã hoje em dia.

O Brasil, por seu lado, tem muitos interesses no Irã (vejam um post sobre o assunto aqui). O governo vem acenando há bastante tempo seu ‘alinhamento’ com o país persa (O presidente Lula, inclusive, visitará o país no dia 15 de Maio). Até que ponto esse comportamento, ao invés de revelar a posição de um país firme, soberano e preocupado com a segurança internacional, revela uma ‘quase’ potência com um discurso independente, porém irresponsável num caso tão delicado e com potencial de causar tantos conflitos como o do Irã?

Até que ponto o que o presidente do Irã disse evidencia o papel de ‘potência’ do Brasil no mundo?

De que o Brasil não é mais um player secundário não há o que discordar. Mas tenho minhas dúvidas de que a declaração do presidente iraniano a que se refere esta postagem seja reflexo do novo patamar do nosso país no mundo.


Categorias: Brasil, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Política e Política Externa


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