Mares revoltos (até para os americanos)

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O Brasil tem navegado soberano pelos mares da economia internacional. São tantos elementos favoráveis – valorização das commodities, controle da inflação, crescimento econômico sustentado e amplos programas de distribuição de renda – que a crise de 2008 ficou longe de ser um pesadelo, apesar de tampouco ter se aproximado da “marolinha” apregoada por Lula. Por outro lado, um estudo das Nações Unidas sobre as perspectivas econômicas para os próximos anos apontou que nossa economia foi, em grande medida, tragada por eventos sucessivos que nos possibilitaram colher benesses no meio da tempestade. O alerta não vem somente de organismos internacionais, mas é amplamente conhecido e discutido por analistas no Brasil.

A queda da demanda das commodities parecia tolher as esperanças brasileiras. Contudo, o mercado das commodities foi alvo da ação de investidores (ou especuladores) frente a queda do dólar logo após o início da crise no setor bancária. No final das contas, as commodities elevaram suas cotações e garantiram maior segurança econômica ao país. Foi um golpe do destino, longe de um cenário previsto ou preparado por nossos governantes. O barco brasileiro, arisco e forte contra oscilações internacionais, poderia virar caso cenários menos favoráveis se consolidassem. A Sociedade Brasileira de Economia Política traz diversas considerações, críticas e sugestões para assegurar o fortalecimento do nosso projeto de desenvolvimento nacional.

Voltemos nossa atenção para o cenário externo. Os tais PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) eram os vilões preferidos, aqueles que poderiam levar o mundo a conhecer buracos ainda mais fundos e obscuros. Parece que não, ao menos não são os únicos vilões. Nesta semana, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, clamou aos congressistas americanos pela expansão do teto da dívida do país. Na prática, isso representaria novos endividamentos para arcar com compromissos previamente assumidos. Sem isso, a confiança do mundo para prover crédito aos americanos desfaleceria. O default, aquilo que a Argentina já fez em 2001, seria catastrófico uma vez que poderia trazer a recessão de volta. Mesmo nós, leigos para assuntos econômicos complexos, já aprendemos: uma eventual crise nos Estados Unidos ameaçaria todos. Se para salvar a Grécia foram necessárias negociações tão complexas, imaginem o que aconteceria em um cenário de calote norte-americano.

Este cenário, mesmo considerando as discordâncias entre governo e congressistas, ainda é pouco provável. As partes envolvidas na discussão (essencialmente um embate partidário entre democratas e republicanos) conhecem os riscos envolvidos. Uma economia ainda mais destroçada não parece convir nem mesmo para os mais severos oposicionistas. Obama promete organizar reuniões diárias com congressistas até o fim do impasse. Resta saber se vencerá pelo cansaço ou pela persuasão. Na Europa, os problemas com os PIIGS também persistem, salvar a Grécia parece ser um mero paliativo para um bloco europeu assolado por bombas-relógio. Neste cenário, o Brasil segue intacto. O governo e a sociedade brasileira deveriam levar as seguidas ameaças de crise como um remédio contra a soberba de pensar que estaremos sempre salvos nesse mar indecifrável, a economia internacional.

Enquanto isso… 1,2


Categorias: Economia, Política e Política Externa


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