Mãos atadas

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Outra semana estava comentando sobre como o conflito entre o Sudão e seu homônimo do Sul pode vir a ser uma das guerras atuais. Infelizmente, um pouco mais pra cima, não temos mais o que esperar, já temos uma guerra civil em curso. A esperança para a solução dos conflitos na Síria é cada vez menor, e já tem quem diga que vá ser o novo Líbano dos anos 80. Há algumas semanas, estávamos comemorando o envio de observadores da ONU, como uma das poucas chances de fazer funcionar um plano de paz. O problema é que, como se esperava, a presença dos observadores não deu em nada (e eles foram até alvo de atentados e tudo mais), e os ataques pioraram, de ambos os lados. As forças de segurança e os rebeldes fazem tocaias e emboscam uns aos outros, com a população civil no meio. Chegou-se praticamente a um ponto sem retorno, em que a pressão internacional não renderá nada e o ódio acumulado entre os grupos étnicos-religiosos vai explodir, sendo quase impossível evitar o massacre. 

O problema, talvez, seja que o foco esteja sendo dado muito para a questão de Assad. Afinal, a culpa dos massacres é dele, por ter mandado o exército pra cima dos manifestantes, ao longo do último ano. O problema é que pouco importa se ele esteja ou não no poder – a questão lá está saindo cada vez mais do cunho político e indo para aquele terreno perigoso da etnia e religião. Os manifestantes queriam melhorias e direitos políticos. Agora, querem a cabeça daqueles que os atacaram, o governante que representa uma minoria opressora. Aí que mora o problema. Assad é membro dos alauitas, um grupo étnico minoritário, e que tem apoio dos cristãos (em maioria ortodoxos), também minoria. Vale lembrar que a “maioria”, na Síria, é sunita (então nada de culpar os xiitas). Se Assad permanecer no poder, os conflitos vão continuar pela mera presença dele e a raiva que os grupos insurgentes acumularam ao longo do ano. Se ele sair, vivo ou morto, aí amigo, é que a coisa vai ficar feia, e vamos ter que nos reacostumar àqueles noticiários macabros dos anos 90 da antiga Iugoslávia ou das guerras civis na África. Quando a razão dá lugar à emoção da vingança na guerra, o resultado é o massacre, e já há relatos de gente sendo queimada viva, entre outras coisas. A tendência é que a coisa piore, e não temos mais razão (que não sejam picuinhas metodológicas ou teóricas) pra não dizer que a Síria vive uma guerra civil das piores. 

Como evitar isso? O plano de cessar-fogo da ONU é um fracasso total. Uma saída (a única viável “de fora”, e provavelmente a mais eficaz) seria cortar o financiamento e a venda de armas para os dois lados. Mas é praticamente impossível evitar que a Rússia abra mão de seu cliente fiel (e de sua base naval lá…). Claro que ninguém é santo – se a Rússia vende armas pro Assad, os EUA e outros países estavam contrabandeando pros insurgentes… Então, infelizmente, cortar o mal pela raiz está fora de questão. Uma invasão também, como os EUA descobriram no Líbano nos anos 80. Invadir um dado país com todo seu poder pra derrubar um regime “hostil” é uma coisa, mas mexer em uma briga de navalha entre grupos dispostos a tudo, isso já é algo totalmente diferente, por que limita muito as opções de ataque e operações – além de potencializar o envolvimento de vizinhos e o transbordamento do conflito (apesar de ser algo praticamente inevitável). 

Parece que a única solução possível é a pior, deixar a coisa rolar. Assim, se espera que os lados se esgotem, ou que um deles seja completamente exterminado, e os sobreviventes se acomodem, com a formação de bolsões de refugiados. Ou até mesmo, num caso extremo, a fragmentação do país, como na Iguslávia. O prognóstico é tenebroso, mas quando se trata do processo de manifestação mais violento das últimas décadas, não é de surpreender que o único desfecho que se vislumbre seja o mais pessimista.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Defesa, Direitos Humanos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Política e Política Externa, Segurança


1 comments
Jéssica
Jéssica

Ei,Nossa muito bom o post, parabéns!Então, é fato que, apesar das boas intenções, mais uma vez a imagem da ONU ficou na berlinda.Não devemos esquecer que apesar de os noticiarios nao darem atenção como deram nos casos de Ruanda e Iuguslávia, em que a ONU tbm só observou, sendo que no ultimo ocorreu a ação da OTAN, ainda há conflitos macabros em que muitos morrem, porém poucos ficam sabendo. Republica Democrática do Congo, Mali, Somália são exemplos de lugares onde a lei do mundo ocidental e democrático não impera. A própria Bósnia, que foi tratada recentemente aqui no blog, é um barril de pólvora que a qualquer momento pode estourar, porém, nesse caso, a mídia dará uma atenção bem maior, pois Bósnia = Leste EUROPEU!Quanto a venda de armas, como vc mesmo disse, a Rússia não vai abrir mão disso. Além do que, a industria bélica é uma das que mais movimentam $$, qual capitalista que vai querer parar de maximizar os lucros?Apesar de concordar contigo de que deve-se deixar rolar, já que Assad nao vai largar o osso e se largar o país virará um caos (como muitos desses da Primavera Árabe), é triste ver que muito sangue vai ser derramado e que muitas pessoas vao ser deslocadas de suas casas em busca de refúgio até que se apazigue os ânimos ( o que pode perdurar por anos).Abraços!