Mantendo a promessa: os Objetivos do Milênio das Nações Unidas

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Há cerca de um mês, os líderes mundiais se reuniram em Nova York para avaliar o cumprimento dos ODM, assim como para corrigir as estratégias para o mesmo até o prazo estabelecido (2015). Antes do começo da conferência, Ban-ki Moon, o secretário-geral das Nações Unidas, destacou que muitos dos objetivos têm apresentado um progresso pouco significativo. Admitindo ainda, que a crise financeira impactou negativamente as políticas públicas nacionais e as estratégias internacionais para combater e mudar tal panorama.  

Aqui mesmo na Página Internacional, em um post do Giovanni, já tratamos da baixa efetividade do maior fórum no bojo da comunidade internacional para tratar das temáticas globais. Ao mesmo tempo, no entanto, são crescentes os espaços para debate formados por iniciativas da sociedade civil. O TEDxChange é mais um desses. Também em Nova York, foi organizado um evento para discutir as ODM e apresentar o testemunho de pessoas trabalhando para ajudar a aproximar o cumprimento destes objetivos da realidade. 

O professor sueco Hans Rosling tocou pontos importantes. Os objetivos do milênio seriam, em sua opinião, um marco importante em termos do compromisso internacional adotado. Vai, neste sentido, além da retórica e promessas vazias de valor, uma vez que estabelece objetivos mensuráveis a serem entregados em um determinado período de tempo. Mais que isso, representaria a consciência da necessidade de investir na sustentabilidade do planeta, evitando conseqüências ambientais ainda mais perversas do que as já vistas. Mortalidade infantil, saúde da mulher, planejamento familiar e acesso a educação para mulheres têm, para o professor sueco, uma grande vinculação com a sustentabilidade mencionada. Por outro lado, este é um investimento de longo prazo, mais que objetivos de 5 ou 10 anos. Muito do progresso demandado para países em desenvolvimento na atualidade, tomou décadas de investimentos para países atualmente desenvolvidos. 

Em seqüência, Melinda Gates, comparou o modelo de negócio bem sucedido da Coca-Cola com melhorias das condições de vida para a população de países pouco desenvolvidos. Por que a Coca-Cola pode ser encontrada em qualquer parte, desde os melhores restaurantes do mundo desenvolvido até no rincão de maior concentração de pobreza nos países menos desenvolvido? A resposta estaria baseada em inovação local, utilização de dados em tempo real e marketing. A mesma lógica, segundo a expositora, poderia ser aplicada aos ODM. Primeiro utilizando modelos de iniciativas criados a nível local, como forma de garantir maior aplicabilidade e relevância, tal como a utilização de dados em tempo real como forma de corrigir políticas antes que grandes relatórios e análises sejam elaborados por especialistas. O último ponto seria marketing, qual seja, assim como a Coca-Cola faz, levar a mensagem correta às comunidades para que iniciativas e projetos que os beneficie seja aceitos. Desta maneira, melhorias sociais podem ser mais efetivas e eficazes. 

Uma breve análise nos leva um entendimento. Não importa quão boa seja uma regulação, promessa ou compromisso. São os passos e medidas adotados para seu cumprimento que farão que haja sucesso ou fracasso. Por isso, a dependência dos líderes mundiais para a consubstanciação das ODM não deveria ser a única saída. Uma crise econômica pode ser suficiente para findar investimentos no desenvolvimento de países e comunidade pobres. Assim, são exatamente modelos locais auto-sustentadas e que geram e regeneram um impacto local que podem ser mais efetivos. No longo prazo, tais modelos diminuiriam a necessidade de investimento estrangeiro e financiaria mudanças reais em uma comunidade, não as efêmeras que muitos dos recursos advindos de países desenvolvidos geraram, por exemplo, em países africanos.  

Tudo isso me faz recordar a história contado por Irene Khan, secretária geral da Anistia Internacional, em uma palestra a qual tive acesso. A África do Sul, alguns anos atrás, criou uma das legislações mais progressistas do mundo para a proteção da mulher. Porém, Khan teve acesso a um relato sobre uma jovem mulher que vivia em uma favela de Johanesburgo. Esta jovem sofria constantemente com a violência de seu marido, até que chegou um dia que tal violência terminou ocasionando sua morte após um forte espancamento. Irene Khan, assim, concluía que a lei era extremamente boa, faltava pensar o acesso da mulher a seus mecanismos. A primeira sem a segunda pouco ou nada valia. O mesmo se aplica para as ODM. De compromissos e promessas estamos bem, faltam, muitas vezes, ações que validem e façam valer todos os documentos aprovados pelos países junto aos organismos das Nações Unidas. 


Categorias: Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


4 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

Tentando complementar o Giovanni, posso responder a questão de que se pode fazer para ajudar.As ODM são uma iniciativa política, antes de tudo. Porém, isso não exclui o cidadão comum de agir para o cumprimento desses objetivos.Conheço muitos ativistas sociais que trabalham enfocados em diferentes áreas (saúde, educação, meio-ambiente... entre outras) que contribuem ativamente para a melhoria da qualidade de vida de suas comunidades. Assim, entregam impactos nos ODM também. Se você, Vivian, quer contribuir, pode buscar uma atividade comunitária, voluntário ou iniciar seu próprio projeto. Te envio um video para inspiração: diversas iniciativas de jovens e os ODMhttp://www.youtube.com/watch?v=LLouCNJ3Zac

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Este post veio em boa hora, Kita!O ano de 2010 tem sido um dos anos mais críticos quanto ao avanço dos ODM, até porque já se passaram dez anos de seu lançamento e dois terços de seu prazo. Não há muita esperança para que as metas tão ambiciosas, mas alcançáveis, como as definiu o então Secretário-Geral, Kofi Annan, se concretizem até 2015. Situação lamentável. Segundo estudos, cerca de metade dos países do mundo poderão atingi-las, sobretudo dos países desenvolvidos. Tentando responder a resposta da Vivian e ampliando a discussão desta postagem, eu diria que o principal motivo do insucesso dos ODM é a falta de vontade política. Por volta dos anos 1970, criou-se uma tal de Ajuda Oficial para o Desenvolvimento (AOD), cujos países desenvolvidos se comprometeriam a destinar 0,7% do PIB nacional para o desenvolvimento dos países mais atrasados. Um ou outro país fez isso e no novo milênio, a Conferência de Monterrey retomou isso. Resultado similar.Além do mais, os ODM foram adotados globalmente para serem implementados localmente. Porém, isto é de pouco conhecimento das prefeituras. Em outros termos, há uma enorme falta de comunicação entre os governos nacionais e os entes subnacionais (e não acho que seja só no Brasil, não). Como já está grande o comentário, volto a comentar depois. Mas eu, que estudei por quase 2 anos os ODM, fico muito chateado que uma das iniciativas mais nobres da ONU venha a falhar num milênio que gastou mais para matar pessoas do que para salvá-las.Abraços

Vivian
Vivian

Poxa... Mas pq nós, meros mortais com pequenas iniciativas, temos tão pouco acesso aos ODM`s?! Não entendo pq isso é tão pouco divulgado e gostaria de saber o q podemos fazer pra ajudar! Eles criam as estratégias, mas quem vai implantá-las?!

Vivian
Vivian

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