Manda mais dinheiro ae!

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Após cerca de cinquenta países se reunirem na semana passada em uma única rodada de negociações e emitirem a Declaração de Tóquio, ficou decidido que mais US$ 16 bilhões em ajuda serão enviados ao Afeganistão entre 2012 e 2015. Ainda assim, até o ano de 2017 tais Estados se comprometeram em manter um diálogo facilitado com este país, uma vez que Hamid Karzai, atual presidente afegão, aprovou este novo pacote de medidas. 

Nas notícias vinculadas na mídia, divulgou-se que o próprio governo do Afeganistão pretende, com esta possível “cooperação”, fortalecer a governança, os direitos humanos e o estado de Direito. Se fosse fácil, mas não é! E isso nos remete à última década, na qual o país sofreu intervenção norte-americana (e de seus aliados, claro) e foi palco de três principais questões: reconstrução de um país, exportação da democracia e combate ao terrorismo. 

Logo após o 11 de Setembro de 2001, o governo de George Bush promoveu uma verdadeira “caça ao Bin Laden”, invadindo o território na procura pelos líderes da organização Al-Qaeda. O Afeganistão foi considerado um “estado falido”, no qual não havia garantia dos atributos básicos de governabilidade, ou seja, o governo não conseguia impor as diretrizes das leis. 

Com sua política externa de diretrizes liberais, mas com práticas bem realistas, Bush hasteou a bandeira da promoção da democracia para o restante do mundo e o próprio Afeganistão não fugiu à regra. Democracia, esta, extremamente ligada às concepções liberais e de livre-mercado norte-americanas. O conceito foi usado para fortalecer a hegemonia do país perante o mundo, reafirmar seus ideais e, sem dúvidas, servir como “desculpa” para intervir de forma unilateral no Oriente Médio. 

Por fim, a ideia era minimizar o terrorismo com a guerra preventiva. Atacar antes de ser atacado, era este o lema! Desconhecendo a origem do perigo, de acordo com Bush, o correto era combater qualquer ameaça e extirpar qualquer possibilidade de detenção de armas de destruição em massa (WMD, em inglês) pelos países enquadrados no “eixo do mal”.

E o que tudo isso tem a ver com a ajuda financeira da Declaração de Tóquio? Primeiro, não se pode dizer que a intervenção norte-americana no Afeganistão teve resultados satisfatórios. Segundo, invadir um país é fácil, difícil é reconstruir suas bases governamentais e conseguir o apoio populacional para tanto. Terceiro, toda ajuda deve ser condizente com a realidade de vários países e não somente de um. Exemplo disso é que a ajuda financeira de US$ 16 bilhoes proverá de inúmeros governos e iniciativas diversas. 

A questão é: até que ponto mandar mais dinheiro e fazer investimentos sem levar em conta as características internas destes países, com destaque para o Afeganistão, trará resultados positivos para estas regiões (Oriente Médio e sul da Ásia)? Deve-se, sim, promover os ideais democráticos e reestruturar as bases da sociedade civil, mas se, e somente se, levar em consideração os caracteres culturais e religiosos destes povos. Caso contrário, é muita grana para pouco resultado. Mais do que fazer, o correto é fazer bem feito. Falta isso na visão dos países ocidentais.

PS: Uma análise recente (Março/2012) que demonstra o quão problemática é a questão da retirada das tropas do Afeganistão pode ser encontrada aqui.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico