Males da austeridade

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Há mais de um ano, em artigo do Giovanni, foram destacados alguns fatores fundamentais para a vitória do Partido Conservador nas últimas eleições do Reino Unido. Gordon Brown, então líder do Partido Trabalhista, entregava a seu sucessor um país com crescentes desigualdades sociais e um déficit orçamentário em 11,9% do PIB. O fundamental, no entanto, era o quadro que se materializava através da promessa de aprofundar a austeridade sob o comando de David Cameron e Nick Clegg, reduzindo assim o déficit para 2% em 2014.

O que fora, em parte, iniciado por Gordon Brown, tornou-se o principal compromisso de Cameron: melhorar substancialmente a situação econômica do país. Além disso, defendia a diminuição da burocracia e o fomento da descentralização do poder. Em época de campanha, a plataforma soou como música para um eleitorado atônito. Há pouco mais de um ano, o tal déficit orçamentário britânica equiparava-se com o déficit grego. É evidente que a situação do Reino Unido não permitia soluções milagrosas, mas projetava um horizonte de grandes dificuldades.

Já afastadas, nas múltiplas análises do caso, interpretações superficiais das revoltas recentes, cabe ainda questionar o verdadeiro significado dessas políticas de austeridade. Houve, em menos de um ano de governo, uma escalada na frustração e raiva de setores da sociedade britânica. Já vimos: protestos estudantis, ocupação de universidades e atos públicos organizados por sindicatos. Os atos criminosos perpetrados no início de agosto são uma face das escolhas recentes e, mais que isso, dos setores da sociedade que realmente carregam o fardo da austeridade. Desemprego de 20% entre jovens de 16-24 anos, mensalidades de universidades triplicadas, programas enfocados na juventude encerrados. Fatores que certamente não ensejam esperanças para comunidades que antes se beneficiavam de investimentos sociais.

Poucos poderiam esperar isso dos britânicos. Para a socióloga Saskia Sassen, as diversas manifestações ao redor do mundo não são isoladas. Tais movimentos representam, em realidade, a chegada de um ponto limite da lógica excludente advinda da globalização. Neste sentido, seria lógico prever a intensificação dos conflitos. Qual a direção que tomamos, há ainda algo a perder? Entre agências de qualificação, tetos de dívidas e rendimento de títulos públicos, nada parece estar sob nosso controle. Contudo, as piores conseqüências irrompem entre nós, meros espectadores.

No caso britânico, a edição especial “O Mundo em 2011” da publicação The Economist já destacava a distribuição desigual dos cortes orçamentários: Defesa com 7,5%, Educação 11%, ao passo que os departamentos responsáveis pelo policiamento e prisões sofreriam um corte de 25%. A coalizão governista certamente não esperava flores pelo caminho, mas seu destino parece ainda mais sombrio que o previsto. Será possível levar até o fim um plano de austeridade a despeito das demandas e protestos dos seus eleitores?


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