Mais um capítulo da longa história da República Polonesa

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O que se pode dizer de um povo tantas vezes atacado, conquistado e invadido? Parte importante da história do povo polonês foi construída através de um intenso sofrimento, humilhação e persistência. Se há nações que remetem a um mito de fundação nacional, a Polônia não é um deles. Mais que isso, não precisa de tais fábulas. Seu povo foi o motor de sua resistência e genuíno renascimento, tal como sua história vivida e construída com muito sangue e suor.  

Levemos em consideração somente os últimos 100 anos. Neste intervalo, a Polônia viu seu Estado renascer em três oportunidades. Primeiro, a derrota da Alemanha e do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial somada a implicações da Revolução Russa ensejou a oportunidade para o país reconquistar a sua autonomia, oficializada pelo Tratado de Versalhes em 1918. Antes disso, os poloneses tiveram seu território dividido entre alemães, russos e austríacos por décadas. Logo em seqüência, em 1920, os poloneses ainda tiveram que defender seu território contra o exército russo, de Lênin, na Batalha do Vístula.  

Contudo, a vida republicana teve vida curta. Em setembro de 1938, Hitler ordenou a invasão da Polônia em três frentes: norte (pela Prússia), oeste (desde o território alemão) e do sul (pela Eslováquia). A disparidade militar era evidente, os 180 tanques e 420 aviões de guerra da Polônia resistiram por menos de 14 dias aos 2600 tanques e mais de 2000 aviões de guerra alemães. Logo, Varsóvia – capital do país – estava sob o domínio de Hitler. As potências ocidentais, apesar de declaração de guerra à Alemanha, não enviaram tropas para auxiliar os poloneses. Para completar, os soviéticos invadiram o país por sua fronteira leste. Os desdobramentos da guerra são amplamente conhecidos. Com o fim da guerra, deu-se então a segunda fundação do país, sob a alcunha República Popular da Polônia, parte da zona de influência e controle soviético. Libertada dos alemães, os poloneses se viram sob o julgo da União Soviética.

(Palácio da Cultura e Ciência (Varsóvia) – presente de dos soviéticos para os poloneses)

Por fim, o movimento Solidariedade surgiu, comandado por Lech Walesa, baseado na insatisfação popular ante as condições de vida e a supressão imposta pelos soviéticos. Apoiados pela Igreja Católica, na figura do Papa João Paulo II, o Solidariedade passou a promover manifestações e paralisações de trabalhadores ao norte do país. Prontamente o movimento tornou-se nacional, desafiando o monopólio de poder soviético. Houve o recrudescimento do controle sobre os poloneses, porém somente contribuiu para o fortalecimento das intenções dos simpatizantes do Solidariedade, culminando no retorno da Polônia a democracia em 1989. Foi o terceiro renascimento da República da Polônia em menos de um século.  

A história da nação e do seu povo, com ou sem Estado e território, é digna de admiração. Seu território viu passar todos os capítulos da história, desde os cavaleiros medievais, os horrores da guerra, as dominações e invasões estrangeiras, mas também a tão valorizada autonomia e as benesses da integração européia. Após conquistas e reconquistas, livre do julgo de outras nações, a República e a democracia finalmente se consolidavam.

A Polônia foi o único do país da União Européia a apresentar expansão de sua economia em 2009, apesar do crescente desemprego e do parco controle das finanças públicas. Tudo corria dentro do normal, dada a conjuntura econômica atual. Além disso, as eleições presidenciais estavam marcadas para 2010, o presidente Kaczynski – pouco popular – tendia a perder o posto para o atual primeiro-ministro, Donald Tusk. O acidente e a morte de diversas autoridades polonesas (já tratado no blog por Álvaro e Bianca) certamente é uma das ocasiões mais tristes da sofrida história do país, podendo abrir precedentes de instabilidade política. No entanto, essa possibilidade parece remota. Ao contrário, deve fortalecer a união nacional, relembrar a luta do seu povo e promover debates políticos valiosos. Um país que já se reconstruiu a partir de cinzas, luto e sofrimento em várias ocasiões, vai escrever mais um capítulo em sua história e reerguer-se novamente.


Categorias: Europa


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