Mais tensão no Irã – nesse angu tem caroço

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Já chegam a 17 os mortos nos protestos no Irã e muita gente questiona: seria o fim do regime dos aiatolás?

Minha tese: não. Os protestos ocorrem não porque se questiona o regime em si, mas o resultado das eleições. O governo do presidente Ahmadinejad foi controverso não só na comunidade internacional, mas dentro do próprio país.

O isolamento da comunidade internacional pelas declarações e posicionamentos ‘questionáveis’, inflação, economia em baixa e, claro, seu conservadorismo exacerbado que não combina com um país que tem cerca de 70% da população com até 30 anos. Infelizmente, os dados que se conseguem sobre as eleições no Irã não são muito confiáveis, mas é claro que nesse angu tem caroço.

E todo mundo quer mexer o angu. Minha avó dizia: quando tem muita mão mexendo o doce, passa do ponto. O governo americano chegou até a usar seu pequeno poder de influência pra adiar uma manutenção do Twiter que o bloquearia no Irã por algum tempo. Pra quem não sabe, o segundo idioma da blogsfera é o farsi, língua oficial do país. Por lá, os blogs têm muita força.

O Lula, claro, não podia perder a oportunidade de falar besteira. Segundo nosso presidente, a diferença entre os votos recebidos por Ahmadinejad e Mousavi, que foi grande, indica que não houve fraude. O que ele esqueceu é que muitos ditadores africanos, que nosso governo apóia quando se omite de muita coisa, elegem-se com diferenças ainda maiores com indícios claríssimos de fraude. Aliás, em sua última eleição, Sadam Hussein foi eleito com nada mais nada menos que 100% dos votos…

O poder do Irã não está somente na cadeira sagrada do Aiatolá. O presidente também tem muitos poderes por lá, como o controle da mídia, do programa nuclear e a indicação de milhares de cargos de confiança, como os governadores, que com certeza afetam as decisões centrais do regime.

O Aiatolá, por sua vez, controla a Guarda Revolucionária, milícia armada com muitos soldados e indica a metade dos membros do Conselho dos Guardiões, que entre as finalidades está controlar o processo eleitoral.

Essa estrutura de poder é forte. Tem uma história revolucionária por trás disso tudo. Não se derruba assim do dia pra noite, por mais que alguns queiram. Por isso, insisto na tese de que o Irã tem as condições necessárias para manter a ordem no país, e que o ocorre é ocasional, dada a surpreendente vitória esmagadora de Ahmadinejad.

No entanto, amados, não sou dono de uma bola de cristal, e nunca se sabe o que pode ocorrer. O angu a gente sabe como é até chegar no ponto. Mas quando tem tanta mão mexendo um doce que já passou do ponto, ninguém sabe o que pode acontecer.


Categorias: Oriente Médio e Mundo Islâmico


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